13/10/2026
PAGA RENDA? RECEBE RENDA? ENTÃO LEIA ESTE ARTIGO.
O arrendamento em Portugal é um campo de guerra silencioso. De um lado, inquilinos que não sabem que direitos têm e aguentam o que não deviam. Do outro, senhorios que não sabem como agir quando as coisas correm mal e acabam a fazer o que não podem.
No meio disto, uma legislação densa, alterada dezenas de vezes nas últimas duas décadas, que quase ninguém domina. Nem os senhorios, nem os inquilinos, e por vezes nem os próprios mediadores que montam os contratos.
Este artigo é Para quem arrenda e para quem é arrendatário. Para quem quer saber o que pode e o que não pode. Para quem precisa de agir e não sabe como. E para quem está a ser vítima de abusos e pensa que não tem saída.
I. O CONTRATO: O QUE TEM DE LÁ ESTAR (E O QUE ACONTECE QUANDO NÃO ESTÁ)
O contrato de arrendamento urbano tem de ser reduzido a escrito (art. 1069.º do Código Civil). Tem de conter a identif**ação das partes, a identif**ação do imóvel, o fim do contrato (habitação ou não habitação), o valor da renda, a data de início, o prazo e a existência de licença de utilização.
A falta de forma escrita não signif**a que o contrato não existe. Desde a Lei 13/2019, o art. 1069.º, n.º 2, do Código Civil prevê que, quando a falta de redução a escrito não seja imputável ao arrendatário, este pode provar a existência do arrendamento por qualquer meio admitido em direito. A jurisprudência dos tribunais superiores (incluindo o STJ) tem entendido que a exigência de forma escrita é meramente ad probationem, ou seja, serve para facilitar a prova, não para determinar a validade do contrato. O inquilino sem contrato escrito tem direitos. Não está desprotegido.
Mas a falta de contrato escrito traz problemas práticos sérios. O senhorio não pode deduzir as despesas no IRS. O inquilino não pode deduzir a renda. Nenhum dos dois consegue recorrer ao Balcão do Arrendatário e do Senhorio (BAS) nem ao procedimento especial de despejo sem contrato formalizado. E se houver litígio, a prova, embora admissível por qualquer meio, torna-se mais difícil para ambas as partes.
II. A LICENÇA DE UTILIZAÇÃO: SEM ELA, O SENHORIO TEM UM PROBLEMA
O senhorio só pode arrendar um imóvel que tenha licença de utilização adequada ao fim do contrato (art. 1070.º do Código Civil e art. 5.º do DL 160/2006). Quem arrenda uma casa para habitação sem licença de utilização para habitação está a cometer uma contra-ordenação e sujeita-se ao pagamento de coima.
Mas atenção: a falta de licença de utilização, segundo a maioria da jurisprudência, não torna o contrato nulo. Sujeita o senhorio à coima, mas o contrato produz efeitos entre as partes. O inquilino continua protegido e pode, se quiser, resolver o contrato e pedir indemnização por danos (art. 5.º, n.ºs 5 e 7, do DL 160/2006).
Esta situação é mais frequente do que se imagina. Há milhares de imóveis arrendados em Portugal sem licença de utilização, especialmente construções antigas ou reconversões de espaços comerciais para habitação. Se é senhorio e não tem licença, regularize. Se é inquilino e o senhorio não tem licença, saiba que tem uma arma legal que pode usar se precisar.
III. A DURAÇÃO DO CONTRATO: MÍNIMO UM ANO, RENOVAÇÃO AUTOMÁTICA
O contrato de arrendamento para habitação com prazo certo não pode ter duração inferior a um ano (art. 1095.º, n.º 2, do Código Civil, alterado pela Lei 13/2019). Se as partes fixarem prazo inferior, o contrato considera-se celebrado pelo prazo mínimo de um ano.
No silêncio das partes, o contrato considera-se celebrado com prazo certo pelo período de cinco anos (art. 1094.º, n.º 3, do Código Civil). E renova-se automaticamente no final do prazo, por períodos mínimos de três anos (art. 1096.º, n.º 1, do Código Civil, na redacção da Lei 13/2019). A questão de saber se este mínimo de três anos é imperativo ou se as partes podem fixar renovações mais curtas por acordo é ainda discutida nos tribunais, mas a tendência maioritária é considerá-lo imperativo.
Para o inquilino isto é protecção. Para o senhorio é previsibilidade. Nenhum dos dois pode ser surpreendido se souber ler o que o contrato diz e o que a lei prevê quando o contrato não diz.
IV. COMO TERMINA O CONTRATO: AS REGRAS PARA CADA LADO
A cessação do contrato de arrendamento pode acontecer por acordo, resolução, caducidade, denúncia ou oposição à renovação (art. 1079.º do Código Civil). As regras são diferentes para o senhorio e para o inquilino.
O inquilino pode denunciar o contrato sem precisar de justif**ar, mas não pode fazê-lo a qualquer momento. A lei exige que tenha decorrido pelo menos um terço do prazo de duração inicial do contrato ou da sua renovação (art. 1098.º, n.º 3, do Código Civil). Só depois desse período o inquilino pode denunciar, mediante comunicação ao senhorio com a antecedência mínima de 120 dias se o prazo do contrato for igual ou superior a um ano, ou de 60 dias se for inferior a um ano. Por exemplo: num contrato de 5 anos, o inquilino só pode denunciar após 20 meses, e a partir daí com 120 dias de aviso prévio. Se não respeitar o pré-aviso, paga ao senhorio as rendas correspondentes ao período em falta (art. 1098.º, n.º 6, do Código Civil).
O inquilino pode ainda impedir a renovação automática do contrato (oposição à renovação), comunicando ao senhorio com antecedência de 120 dias se o prazo for igual ou superior a seis anos, 90 dias se for entre um e seis anos, 60 dias se for entre seis meses e um ano, ou um terço do prazo se for inferior a seis meses (art. 1098.º, n.º 1, do Código Civil).
O senhorio tem regras muito mais restritivas. Só pode opor-se à renovação do contrato nos casos previstos na lei, com prazos de aviso prévio signif**ativamente maiores: 240 dias para contratos com prazo igual ou superior a seis anos; 120 dias para contratos entre um e seis anos; um terço do prazo para contratos inferiores a seis meses (art. 1097.º do Código Civil, alterado pela Lei 56/2023).
E nos contratos de duração indeterminada, o senhorio só pode denunciar livremente mediante comunicação ao arrendatário com antecedência não inferior a cinco anos, confirmada entre 15 e 12 meses antes da data prevista para a cessação (art. 1101.º, al. c), do Código Civil). Sim, cinco anos. Se o inquilino tiver 65 ou mais anos, ou deficiência igual ou superior a 60%, o senhorio não pode sequer denunciar o contrato com este fundamento.
V. A ACTUALIZAÇÃO DA RENDA: QUANDO, QUANTO E COMO
A renda pode ser actualizada anualmente pelo senhorio, com base no coeficiente de actualização publicado pelo Governo em Diário da República. Este coeficiente baseia-se na taxa de inflação e é publicado todos os anos até 30 de Outubro para aplicação no ano seguinte (art. 24.º do NRAU).
A comunicação da actualização deve ser feita por escrito ao arrendatário com pelo menos 30 dias de antecedência relativamente à data em que a nova renda se torna devida. Se o senhorio não actualizar durante vários anos, pode aplicar os coeficientes acumulados dos últimos três anos de uma só vez.
O que o senhorio não pode fazer é aumentar a renda unilateralmente acima do coeficiente legal sem acordo do inquilino. Se o senhorio quiser cobrar uma renda superior à que resulta da actualização, precisa de negociar com o inquilino uma alteração do contrato. Se o inquilino recusar, a renda mantém-se actualizada apenas pelo coeficiente legal.
VI. RENDAS EM ATRASO: O QUE PODE E DEVE FAZER O SENHORIO
A mora no pagamento da renda superior a três meses constitui fundamento para resolução do contrato pelo senhorio (art. 1083.º, n.º 3, do Código Civil). O senhorio pode resolver o contrato extrajudicialmente, por comunicação escrita ao arrendatário enviada por carta registada com aviso de recepção.
Mas há uma salvaguarda para o inquilino: o direito de purgar a mora. O inquilino pode pagar tudo o que deve, incluindo uma indemnização de 20% sobre o valor em atraso, e com isso impede a resolução, desde que o faça antes de o senhorio propor a acção de despejo ou de comunicar a resolução (art. 1048.º do Código Civil). Este direito só pode ser exercido uma vez.
O senhorio que resolve o contrato por falta de pagamento pode recorrer ao Balcão do Arrendatário e do Senhorio (BAS) para obter o despejo por via extrajudicial, o que é signif**ativamente mais rápido do que a via judicial. Se o inquilino se opuser, o processo é remetido para tribunal.
Um alerta importante para senhorios: se aceitar rendas em atraso sem protestar, pode perder o direito de resolver o contrato com base nessa mora. A aceitação sem reserva pode ser interpretada como renúncia ao direito de resolução. Se vai aceitar rendas atrasadas mas quer manter o direito de agir, faça-o por escrito, declarando que aceita sem prejuízo do direito de resolução.
VII. OBRAS: QUEM PAGA O QUÊ
O senhorio é responsável pelas obras de conservação, ordinárias ou extraordinárias, necessárias para manter o imóvel em condições de servir ao fim a que se destina (art. 1074.º, n.º 1, do Código Civil). Incluem-se aqui as obras no telhado, na canalização, na electricidade, na estrutura e nas paredes exteriores.
O inquilino é responsável apenas pelas pequenas deteriorações resultantes de uma prudente utilização (art. 1073.º, n.º 1, do Código Civil). Uma torneira que pinga por desgaste natural, uma fechadura que se estraga com o uso normal. Tudo o que não seja pequena manutenção é do senhorio.
Quando o senhorio não faz as obras a que está obrigado, o inquilino pode: intimar o senhorio a realizá-las, fixando um prazo razoável; caso o senhorio não cumpra, requerer ao tribunal ou ao BAS autorização para realizar as obras e deduzir o custo nas rendas; ou resolver o contrato se a falta de obras tornar o imóvel inabitável.
A lei criou a injunção em matéria de arrendamento (IMA), um procedimento expedito pelo qual o inquilino pode exigir ao senhorio a realização de obras ou o pagamento de compensação por obras que o próprio inquilino realizou em substituição do senhorio (art. 15.º-T do NRAU).
VIII. A CASA FOI VENDIDA: O QUE ACONTECE AO INQUILINO
A venda do imóvel arrendado não termina o contrato de arrendamento. O comprador sucede nos direitos e obrigações do antigo senhorio (art. 1057.º do Código Civil). Isto signif**a que o novo proprietário assume o contrato exactamente como está: mesma renda, mesmo prazo, mesmas condições.
O novo senhorio não pode exigir que o inquilino saia. Não pode alterar unilateralmente as condições do contrato. E não pode cobrar uma renda diferente da que estava fixada. Tudo continua como antes, com a única diferença de que a renda passa a ser paga a outra pessoa.
O inquilino tem ainda um direito poderoso: o direito de preferência na compra do imóvel (art. 1091.º do Código Civil). Se o arrendamento durar há mais de dois anos, o senhorio é obrigado a comunicar ao inquilino a sua intenção de vender, o preço, as condições de pagamento e a identidade do comprador. O inquilino tem depois o direito de comprar nas mesmas condições. Se o senhorio vender sem comunicar ao inquilino, este pode propor acção de preferência no prazo de seis meses após conhecimento da venda (art. 1410.º do Código Civil).
IX. O ASSÉDIO NO ARRENDAMENTO: CRIME E CONTRA-ORDENAÇÃO
Desde 2019 (Lei 12/2019), o assédio no arrendamento é expressamente proibido e punido. O artigo 13.º-A do NRAU define assédio como qualquer comportamento do senhorio, de quem o represente ou de terceiro com interesse na cessação do contrato que vise perturbar, constranger, criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador, com o objectivo de provocar a desocupação do imóvel.
As formas mais comuns de assédio incluem: cortar a água, a luz ou o gás; deixar de fazer obras essenciais para forçar a saída; fazer obras ruidosas e desnecessárias para incomodar; enviar cartas ameaçadoras; aparecer no imóvel sem aviso nem autorização; mudar as fechaduras das portas comuns; e criar dificuldades no acesso ao prédio.
O inquilino vítima de assédio pode intimar o senhorio a cessar o comportamento por carta registada (art. 13.º-B do NRAU). Se o senhorio não parar em 30 dias, o inquilino pode recorrer ao BAS e pedir a aplicação de sanção pecuniária compulsória. E pode sempre pedir indemnização em tribunal pelos danos sofridos.
E atenção: cortar a água, a luz ou o gás a um inquilino é crime. Constitui coacção, punida pelo artigo 154.º do Código Penal, e o senhorio arrisca pena de prisão até três anos. Não é uma coima. É crime.
X. O DESPEJO: QUANDO E COMO
O despejo é o processo pelo qual o senhorio obtém a desocupação do imóvel e a restituição da posse. Pode seguir duas vias: a via extrajudicial, através do BAS (antigo BNA, Balcão Nacional do Arrendamento), ou a via judicial, através dos tribunais.
O procedimento especial de despejo no BAS é mais rápido e exige que o senhorio tenha um contrato escrito, que o contrato tenha cessado validamente (por resolução, caducidade, oposição à renovação ou denúncia) e que o inquilino não tenha desocupado o imóvel na data prevista. O requerimento é apresentado no BAS, o inquilino é notif**ado para se opor em 15 dias, e se não se opuser ou se a oposição for indeferida, é emitido título de desocupação.
A via judicial é obrigatória quando não existe contrato escrito, quando o inquilino se opõe ao despejo no BAS, ou quando há questões complexas que exigem julgamento (por exemplo, se o inquilino contesta a existência de mora ou invoca o direito de purgar a mora).
Um ponto fundamental: nenhum senhorio pode fazer despejo por conta própria. Mudar fechaduras, retirar pertences do inquilino, cortar serviços ou impedir o acesso é ilegal, constitui crime de coacção e pode dar lugar a processo criminal e a indemnização por danos.
XI. O CONTRATO VERBAL: NÃO TER CONTRATO NÃO SIGNIFICA NÃO TER DIREITOS
Este é um dos temas mais frequentes que me chegam. Pessoas que vivem num imóvel há anos, pagam uma quantia mensal ao senhorio, mas não têm contrato escrito. E quando o senhorio quer que saiam, dizem-lhes que não têm direitos porque não há contrato.
Não é verdade. Desde a Lei 13/2019, o art. 1069.º, n.º 2, do Código Civil protege expressamente o inquilino nesta situação: quando a falta de contrato escrito não lhe é imputável, pode provar a existência do arrendamento por qualquer meio. A jurisprudência tem tratado esta exigência de forma como meramente probatória (ad probationem), o que signif**a que o contrato existe e produz efeitos, mesmo sem documento escrito. A prova pode ser feita por transferências bancárias, recibos, testemunhas, correspondência recebida naquele endereço ou qualquer outro meio que demonstre a ocupação efectiva e o pagamento.
E quem f**a em posição difícil é o senhorio: foi ele que deveria ter formalizado o contrato, e não pode invocar a sua própria omissão para prejudicar o inquilino. Se além disso não declarou as rendas ao Fisco, tem um problema acrescido que não é do inquilino.
XII. RENDAS ANTIGAS E A TRANSIÇÃO PARA O NRAU
Em Portugal existem ainda milhares de contratos de arrendamento anteriores a 1990, com rendas muito baixas, frequentemente inferiores a 100 euros, por imóveis que no mercado actual valeriam 500, 800 ou mais de 1.000 euros mensais. É um problema com dois lados igualmente legítimos.
Para o senhorio, a renda é tão baixa que não cobre sequer o IMI e as obras de manutenção. Para o inquilino, frequentemente idoso e com reforma mínima, aquela renda baixa é a única razão pela qual consegue manter um tecto sobre a cabeça.
A lei criou um regime de transição para o NRAU que permite ao senhorio propor a actualização da renda através de um processo negocial com o inquilino. O senhorio comunica o valor da nova renda proposta (calculado com base em 1/15 do valor patrimonial tributário do imóvel), e o inquilino pode aceitar, contrapropor ou invocar protecção especial.
Mas a Lei 56/2023 (Mais Habitação) travou a transição. Os contratos de arrendamento para habitação celebrados antes de 1990 deixaram de poder ser objecto de transição para o NRAU enquanto os inquilinos tiverem protecção especial (idade igual ou superior a 65 anos, deficiência igual ou superior a 60%, ou rendimento anual bruto corrigido do agregado familiar inferior a cinco retribuições mínimas nacionais anuais). O senhorio recebe uma compensação pelo congelamento, isenta de IRS (DL 132/2023), mas é consensual que essa compensação é insuficiente.
XIII. PROTECÇÃO ESPECIAL: QUEM NÃO PODE SER DESPEJADO (OU QUASE)
A lei protege especialmente três categorias de inquilinos:
Inquilinos com 65 ou mais anos de idade.
Inquilinos com deficiência igual ou superior a 60%.
Inquilinos cujo agregado familiar tenha rendimento anual bruto corrigido (RABC) inferior a cinco retribuições mínimas nacionais anuais.
Para estes inquilinos, o senhorio não pode denunciar o contrato de duração indeterminada com fundamento na denúncia livre. Não pode opor-se à renovação sem oferecer alternativa habitacional adequada na mesma freguesia ou em freguesia limítrofe. E os prazos de transição para o NRAU são prorrogados.
Mas esta protecção não é absoluta. Mesmo um inquilino protegido pode perder o contrato se não pagar a renda por mais de três meses, se usar o imóvel para fim diverso do contratado, se fizer obras não autorizadas que alterem a estrutura do imóvel, ou se praticar actos que tornem inexigível ao senhorio a manutenção do arrendamento (art. 1083.º do Código Civil). A protecção é contra a denúncia livre e contra a transição forçada, não contra o incumprimento do contrato.
XIV. O SUBARRENDAMENTO: QUANDO PODE E QUANDO NÃO PODE
O inquilino só pode subarrendar o imóvel, total ou parcialmente, com autorização escrita do senhorio (art. 1088.º do Código Civil). O subarrendamento sem autorização constitui fundamento de resolução do contrato pelo senhorio.
Uma regra que muitos desconhecem: a renda do subarrendamento não pode exceder a renda paga pelo inquilino, proporcionalmente à parte do imóvel subarrendada (art. 1092.º do Código Civil). Se o inquilino paga 500 euros e subarrenda metade da casa por 400 euros, está a violar a lei. O subarrendamento especulativo é proibido.
E outro ponto importante: se o contrato principal de arrendamento cessar, cessa também o subarrendamento (art. 1089.º do Código Civil). O subarrendatário não f**a protegido perante o senhorio quando o contrato do inquilino termina. Por isso, se está a subarrendar um quarto, tenha consciência de que a sua protecção depende do contrato entre o senhorio e o inquilino principal.
XV. A CAUÇÃO E O FIADOR: O QUE PODE SER EXIGIDO
O senhorio pode exigir uma caução ao inquilino como garantia do cumprimento das obrigações do contrato (art. 1076.º do Código Civil). A caução não pode exceder o equivalente a duas rendas mensais.
A caução deve ser devolvida ao inquilino no final do contrato, deduzidos os valores em dívida (rendas, encargos ou reparação de danos causados pelo inquilino). Se o senhorio não devolver a caução sem justif**ação, o inquilino pode exigir judicialmente a sua restituição, acrescida de juros.
O senhorio pode também exigir um fiador, alguém que se responsabilize pelo pagamento das rendas e pelo cumprimento das obrigações do inquilino caso este não o faça. A fiança é uma garantia pessoal poderosa: o fiador responde com o seu próprio património se o inquilino não pagar. Mas a fiança prestada por prazo determinado caduca no final desse prazo. Se o contrato de arrendamento se renovar automaticamente, o fiador deve verif**ar se a fiança se mantém em vigor ou se caducou com o termo inicial do contrato.
Se é fiador, saiba que pode renunciar à fiança nos termos gerais. Se é inquilino e o senhorio exige fiador, saiba que a lei não impõe essa exigência, apenas a permite. A caução é a garantia legalmente regulada; o fiador é uma garantia contratual.
XVI. O IRS: O QUE O SENHORIO E O INQUILINO PRECISAM DE SABER
Para o senhorio, as rendas recebidas são rendimento tributável em sede de IRS, na categoria F (rendimentos prediais). A taxa autónoma geral aplicável aos rendimentos de arrendamento habitacional é de 25% (art. 72.º, n.º 2, do Código do IRS). O senhorio pode, em alternativa, optar pelo englobamento com os restantes rendimentos, podendo nesse caso deduzir as despesas de conservação e manutenção do imóvel, o IMI, o condomínio e o seguro obrigatório.
Mas a grande novidade fiscal de 2026 é esta: o DL 97/2026, de 20 de Maio (Pacote Fiscal da Habitação), criou uma taxa autónoma reduzida de 10% para rendimentos de arrendamento habitacional com renda moderada, ou seja, renda mensal até 2.300 euros (art. 45.º-C do Estatuto dos Benefícios Fiscais). Esta taxa aplica-se aos rendimentos obtidos entre 1 de Janeiro de 2026 e 31 de Dezembro de 2029, salvo quando exista uma taxa mais favorável. Na prática, a maioria dos senhorios com contratos habitacionais de renda até esse limite passou a pagar 10% de IRS sobre as rendas, e não 25%.
Mantêm-se ainda as reduções para contratos de longa duração (art. 72.º, n.ºs 3 a 5, do Código do IRS): contratos de 5 a 10 anos beneficiam de uma redução de 10 pontos percentuais (f**ando em 15%); contratos de 10 a 20 anos de 15 pontos (f**ando em 10%); e contratos iguais ou superiores a 20 anos de 20 pontos (f**ando em 5%). Estas reduções aplicam-se sobre a taxa geral de 25%, pelo que os senhorios com contratos longos e renda moderada devem comparar e aplicar a taxa mais favorável.
Para o inquilino, a renda paga é dedutível no IRS: 15% do valor suportado, com o limite de 900 euros em 2026 e 1.000 euros a partir de 2027 (DL 97/2026). Para beneficiar desta dedução, o inquilino precisa de exigir recibo de renda electrónico ao senhorio. Se o senhorio não emitir recibo, o inquilino pode comunicar o contrato directamente à Autoridade Tributária.
XVII. O ARRENDAMENTO PARA FINS NÃO HABITACIONAIS: REGRAS DIFERENTES
O arrendamento para fins não habitacionais (comércio, serviços, indústria) tem regras diferentes. Os prazos mínimos não se aplicam da mesma forma, a protecção especial dos inquilinos vulneráveis não se aplica, e as regras de denúncia e oposição à renovação são mais flexíveis.
No silêncio das partes sobre a duração, o contrato para fins não habitacionais considera-se celebrado com prazo certo de cinco anos (art. 1110.º do Código Civil). O senhorio pode opor-se à renovação com pré-aviso mais curto do que nos contratos habitacionais.
A indemnização pela cessação do contrato pode incluir o valor das benfeitorias realizadas pelo inquilino, o valor do estabelecimento comercial e a perda de clientela, quando aplicável. Estas indemnizações podem representar valores elevados e são frequentemente litígios complexos.
XVIII. CONCLUSÃO
O arrendamento em Portugal não é um tema simples. É uma relação jurídica complexa, regulada por centenas de artigos do Código Civil, pelo NRAU, pela Lei 56/2023 e por dezenas de diplomas complementares. Nem o senhorio nem o inquilino devem assumir que sabem os seus direitos sem os verif**ar.
O que é certo é isto: tanto o senhorio como o inquilino têm direitos e deveres. Nenhum dos dois pode agir como se o outro não existisse. O senhorio não pode cortar a luz, mudar as fechaduras ou forçar a saída. O inquilino não pode deixar de pagar a renda, subarrendar sem autorização ou recusar-se a sair quando o contrato cessou validamente.
O equilíbrio é possível quando ambas as partes conhecem a lei. E quando a lei não chega, os tribunais existem para isso. O que não pode acontecer, e acontece todos os dias, é que pessoas percam as suas casas ou os seus investimentos por falta de informação. Este artigo existe para reduzir essa lacuna.
Ricardo Graça
Advogado