José António Rousseau

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O ESPECTÁCULO DO MUNDOSentado, confortavelmente, no sofá da minha sala, assisto todos os dias, ao lamentável espetáculo ...
26/02/2026

O ESPECTÁCULO DO MUNDO

Sentado, confortavelmente, no sofá da minha sala, assisto todos os dias, ao lamentável espetáculo do mundo e, nas sábias palavras de Shakespeare, à representação dos seus atores, no palco da vida. A televisão de hoje, através dos seus múltiplos canais, nacionais e estrangeiros, generalistas ou informativos, como num teatro, levanta o pano e permite-nos ser, na plateia das nossas casas, espetadores de tudo o que se passa no mundo. Os cenários são quase sempre os mesmos: o nosso país, os EUA, Israel e a palestina, a Ucrânia, a Rússia, o Irão, a China e muitos outros, mas, no fundo, o guião repete-se e parece ser sempre o mesmo.
Os atores deste palco global são políticos que discursam com ensaiada solenidade, comentadores que interpretam os acontecimentos como críticos de arte apressados, celebridades que desfilam vidas polidas até ao brilho da ficção. Especialistas de tudo e de nada, comentadores com ou sem partido, oferecem-nos as suas versões, sempre “definitivas”, dos factos e acontecimentos diários. Há também a gente anónima entrevistada, surpreendida pela câmara no momento exato em que a sua dor ou a sua alegria se tornam conteúdo mediático. Cada um destes atores desempenha o seu papel, sob a luz intensa dos focos, sabendo ou aprendendo, que a visibilidade, o seu pequeno momento de fama é, simultaneamente, poder e fragilidade.
A televisão transforma a realidade em narrativa. Recorta, enquadra, seleciona. Um conflito distante torna-se num drama; uma tragédia complexa cabe num rodapé apressado. Como espectadores, emocionamo-nos, indignamo-nos, partilhamos opiniões. Mas raramente nos perguntamos quem escreveu o texto, quem escolheu o ângulo, quem decidiu que aquela história, e não outra, merecia abrir o telejornal. Assistimos, julgamos, mudamos de canal e somos públicos, mas também figurantes. O palco estende-se para lá do ecrã com excesso de dramatização, encenações manipuladoras e entretenimento, em vez de informação.
Todos reconhecemos ser a televisão um dos meios de comunicação com maior impacto, na forma como percebemos o mundo, não obstante o crescimento da internet e das famigeradas e tóxicas redes sociais. Mas, a televisão também pode exercer uma influência negativa, pela forma como as notícias são apresentadas enfatizando o sensacionalismo, privilegiando acontecimentos violentos ou polémicos para captar audiências, podendo criar uma perceção distorcida da realidade, levando-nos a acreditar que o mundo é mais perigoso ou caótico do que realmente é. Ah! como os jornalistas amam o escândalo e cheiram o sangue das notícias! E, é essa é a razão pela qual, raramente, ouvimos noticias de conteúdo positivo e de coisas boas que aconteçam no mundo porque, para o jornalismo dos nossos dias, quanto pior o teor das notícias, melhor.
Um facto, é que todos os dias, nos diversos canais de informação, somos brindados com horas e horas consecutivas de fogos, incêndios, inundações, desastres, acidentes, crimes, violência, dramas em figuras de gente, comentário político e desportivo até à exaustão. É esta uma maldição que, pacifica e acriticamente, aceitamos quase como cúmplices. Mas também é um privilégio poder assistir aos Jogos Olímpicos, quer de inverno como os que estão agora a decorrer, quer os de verão, a concertos clássicos e óperas de todo o mundo que diariamente vejo na Mezzo, a jogos não só de futebol, mas de muitas outras modalidades que vejo na BTV, assim como a reportagens e debates nas principais cadeias de televisão mundiais.
Na verdade, a nossa opinião forma-se e molda-se ao que vemos, ouvimos e lemos, como escreveu Sophia e não podemos ignorar. Sim, não podemos ignorar, mas deveremos possuir a sabedoria de relativizar e ter o necessário desprendimento face a todo este espetáculo. Mas, infelizmente, existem situações sobre as quais é muito difícil, senão impossível, ter o necessário desprendimento. Refiro-me, por exemplo, à invasão da Ucrânia pela Rússia que perfaz esta semana quatro longos anos. Quatro longos anos de atentados noturnos, diários e criminosos contra civis nas suas cidades. Quatro longos anos de uma gloriosa e corajosa resistência de um povo a defender a sua independência política e territorial. Quatro longos anos de infindáveis sacrifícios pessoais e coletivos, de destruição de casas, escolas e estruturas energéticas, de separação de famílias, morte de crianças nas cidades e de jovens na frente de batalha. Quatro longos anos de provocações e desconsiderações por parte não só do invasor, mas também daquele que deveria ser o seu maior aliado, os EUA, que acaba por sistemática e incompreensivelmente, fazer o jogo do invasor. Como é que o país que era o farol do mundo da liberdade, da democracia, da defesa dos direitos humanos e o mais feroz opositor das ditaduras, se deixou enredar nesta teia de cedências, apoios e negociatas com as piores pessoas do mundo? A resposta, muito à americana, tem apenas três palavras: Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro. Mas, se tiverem dúvidas, leiam, escutem ou vejam o último, discurso de Donald Trump que ao longo de duas horas, foi a palavra que mais vezes, incansável e avidamente, pronunciou. Sim, vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.

José António Rousseau. Depois de trinta anos como Director Geral da APED e de vinte como professor de Marketing no IADE, IPAM e ISEG

LIVRAI-NOS DO MALAo longo da história da humanidade, o bem e o mal têm sido conceitos centrais na forma como pensamos, o...
20/02/2026

LIVRAI-NOS DO MAL

Ao longo da história da humanidade, o bem e o mal têm sido conceitos centrais na forma como pensamos, organizamos a sociedade e damos sentido à nossa existência como seres humanos, tendo ambos sido transformados pelo tempo, moldados pelas religiões, refletidos pelas correntes filosóficas e lapidados pelas dinâmicas sociais de cada época.
Do ponto de vista religioso, o bem e o mal surgem frequentemente como forças opostas e bem definidas. Nas tradições monoteístas, como o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão, o bem está associado à vontade divina, à obediência aos mandamentos e à prática da virtude, enquanto o mal é entendido como afastamento de Deus, pecado ou tentação. Noutras tradições, como no Hinduísmo ou no Budismo, o mal pode ser visto não tanto como uma força personificada, mas como ignorância, apego ou desequilíbrio.
A filosofia, por sua vez, tende a problematizar esta dicotomia. Para Platão, o mal estaria ligado à ignorância e para Santo Agostinho o mal não é uma entidade em si mesma, mas uma privação do bem. Outros pensadores, como Thomas Hobbes, defenderam que o ser humano, no seu estado natural, tende ao conflito, sendo a sociedade e as leis necessárias para conter o mal, enquanto pelo contrário, Jean-Jacques Rousseau via o homem como naturalmente bom, sendo a sociedade responsável pela sua maldade. Mais recentemente, Hannah Arendt introduziu a ideia da “banalidade do mal”, ao analisar como pessoas comuns podem cometer atrocidades sem uma intenção demoníaca, mas por conformismo ou ausência de pensamento crítico.
Socialmente, os conceitos de bem e mal, acompanham as transformações culturais e políticas, uma vez que práticas outrora consideradas aceitáveis, como a escravatura ou a discriminação de género, são hoje consideradas injustas e moralmente erradas. E, do ponto de vista político, o bem e o mal assumem uma dimensão particularmente complexa, pois deixam de ser apenas categorias morais individuais para se tornarem critérios de organização do poder, da justiça e da vida coletiva e onde diferentes visões do bem entram em confronto, podendo o perigo do mal ganhar proporções estruturais.
Nicolau Maquiavel rompeu com a tradição moralista ao sugerir que, na política, o governante pode ter de recorrer a meios moralmente duvidosos para assegurar a estabilidade do Estado, despoletando assim a dilemática questão de saber se o mal pode ser justificado caso sirva um bem maior. Tenho as minhas dúvidas! Aliás, as trágicas experiências totalitárias do nazismo e do estalinismo, demonstraram bem como o mal pode ser institucionalizado, quando o poder deixa de ter limites éticos e jurídicos, deixando a política de servir o bem comum, para se transformar em instrumento de opressão e repressão.
Para evitar tais situações, as democracias modernas procuraram estruturar o poder de forma a minimizar o mal político, através da separação de poderes, do respeito pelos direitos humanos e da participação cívica dos cidadãos. O bem político passou a ser entendido como garantia de liberdade, igualdade perante a lei e proteção das minorias. Na verdade, a história tem ensinado que quando a política se afasta da ética e do respeito pela dignidade humana, o mal tende a expandir-se. Quando, pelo contrário, se orienta pelo bem comum e por princípios de justiça, torna-se uma das mais poderosas ferramentas de transformação positiva da humanidade.
Mas, em rigor, o que é o bem e o que é o mal? Duas faces da mesma moeda? Dois conceitos antagónicos? Perguntas já respondidas anteriormente ou perguntas às quais ninguém ainda conseguiu responder? Perguntas, às quais poderíamos responder, como Santo Agostinho respondia, quando lhe perguntavam o que era o tempo, ou seja, se não nos perguntarem sabemos o que é o mal e o bem, mas se nos perguntarem já não sabemos!!! De uma coisa estou certo. Não são conceitos absolutos nem objetivos, mas conceitos onde impera o relativismo e a subjetividade, revestindo ambos uma natureza maniqueísta e não podendo nenhum deles ser considerado um imperativo categórico. Aliás, na natureza, no mundo animal ou mesmo nas ciências físicas, como sabemos e não discutimos, o bem e o mal não existem.
O bem e o mal são, seguramente, convenções sociais e morais criadas pelo homem, conceitos de natureza dialética e mais um exemplo da luta dos contrários. São, seguramente, dois conceitos de geometria variável, que podem mudar ou ser diferentes, em função da geografia, da história, da cultura ou do tempo. São, seguramente, dois conceitos geradores de múltiplos dilemas morais ou éticos. Mas não tenhamos ilusões, pois seja qual for a evolução da humanidade e o crescimento espiritual dos seres humanos, haverá sempre o bem e o mal. No fundo, tal como na oração do Pai Nosso, aquilo que podemos, humildemente, pedir a Deus é que, ao longo da nossa vida, Ele nos livre do mal, seja ele qual for, do mal que podemos fazer aos outros ou que os outros nos possam infligir.

José António Rousseau. Depois de trinta anos como Director Geral da APED e de vinte como professor de Marketing no IADE, IPAM e ISEG

QUERIA ENVELHECER COMO O CLINT EASTWOODCheguei à idade em que só o cigarro me faz bater mais depressa o coração, só os ó...
19/06/2025

QUERIA ENVELHECER COMO O CLINT EASTWOOD

Cheguei à idade em que só o cigarro me faz bater mais depressa o coração, só os óculos me permitem ler e o s**o só me serve para verter águas. Cheguei à idade em que prefiro ficar em casa a sair, ver uma série da Netflix do que ir ao cinema, ouvir música em vez de assistir a concertos. Vejo-me todos os dias ao espelho e faço-me sempre a mesma pergunta: Quem é este velho a olhar para mim, de rosto sulcado e olhos pesados?
A maior parte das pessoas é obcecada pela idade cronológica, mas na verdade, esta tem cada vez menos relação com a idade biológica, daí sermos hoje cada vez mais velhos no que respeita ao número de anos que vivemos e mais novos porque nos sentimos ainda saudáveis, enérgicos e com maior esperança de vida. O limbo da meia-idade estendeu-se e está a ficar cada vez mais longo. A velhice só começa depois… e para os outros.
Simone de Beauvoir chamou à velhice a “conspiração do silêncio”, considerando que o problema da velhice estava no facto das pessoas não conseguirem enxergar ou aceitar o seu futuro nessa condição. Ora, um aspeto interessante no processo de envelhecimento é a visão que as pessoas vão tendo de si mesmas. Na verdade, nós vemos a nossa velhice pelo olhar dos outros, ou pela imagem que os outros fazem deles próprios, e assim, "velhos" são sempre os outros.
Uma questão incontornável da parte final da nossa vida a que chamamos velhice é a perspetiva da morte. Ora, o medo da morte localiza-se entre o eu e o superego, diante de um perigo externo ou interno que nos causa angústia e está, queiramos ou não, associado à perda da libido, do nosso desejo sexual. Estou mesmo convencido que, principalmente, nos homens quando tal acontece, é que nos sentimos, verdadeira e irremediavelmente, velhos. No entardecer da nossa biografia, o desafio deixa de ser a vida e passa a ser a morte e o que é difícil de deixar já não é o útero, mas o falo. Completa-se assim o círculo: do tumulo do útero ao útero do túmulo.
Mas não é só o medo da morte que todos sentimos a partir de uma certa idade. É também e porventura mais angustiante, o medo de adoecer gravemente e pânico de um longo sofrimento terminal. Quantas pessoas não ouvimos já dizer que não temem a morte, mas não querem é sofrer. No fundo, os últimos anos da nossa vida correspondem a um processo singular, onde cada um envelhece à sua maneira, com os seus medos e fantasmas, mas em que cada um de nós inscreverá na sua vida algo que lhe seja próprio. Tudo o que fomos escrevendo no livro da nossa vida, será reescrito e reatualizado, a partir dos traços de personalidade próprios de cada um. Na verdade, ao longo de uma vida, muitos são os momentos em que se pode ver o caracter de um homem, nomeadamente, quando perde, quando erra, quando cai. Mas é quando enfrenta e vive a sua velhice e a ideia da sua morte, próxima e inexorável, que o caracter de um homem mais se expressa e melhor se define.
Na verdade, o problema não está em envelhecermos, mas sim como envelhecemos, porque é preciso saber fazê-lo e mantermo-nos, como Bob Dylan cantava e Clint Eastwood praticava, forever young. Sei, perfeitamente, que a idade não faz sábios, mas sim velhos. Porém, os anos e as experiências da nossa vida permitem-nos atingir um patamar de equanimidade, isto é, da capacidade para passar pelos altos e baixos da vida, sem sofrer graves oscilações emocionais, a apatheia dos cristãos ou a vairaga dos hindus. Mas podemos também chamar-lhe sabedoria. Permitam-me terminar contando uma curta história Zen:
Após uma longa e árdua escalada pela montanha uns quantos homens que buscavam a sabedoria encontraram-se finalmente perante um grande Mestre. Fazendo uma profunda vénia fizeram a pergunta que ardia dentro deles:
- Mestre, como poderemos tornar-nos sábios? Após uma longa pausa o Mestre respondeu: Fazendo muitas escolhas acertadas.
- Mas Mestre e como é que podemos fazer escolhas acertadas? Perguntaram.
Adquirindo muita experiência – respondeu o Mestre
- E como conseguiremos adquirir essa experiência?
Através de muitas escolhas erradas – sorriu o Mestre

José António Rousseau. Depois de trinta anos como Director Geral da APED e de vinte como professor de Marketing no IADE, IPAM e ISEG

31/01/2025

MOZART E O PODER DA MÚSICA

No passado dia 27 de janeiro, comemorou-se o aniversário de nascimento, em Salzburg, Áustria, daquele que, para mim, é o maior génio musical da humanidade, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).
Com cinco anos, Mozart escreveu um concerto para cravo, “Minueto e Trio em Sol Maior”, hoje catalogado no índice Koechel, como o n.º 1 e, no ano seguinte, começou a dar recitais, organizados pelo pai, em Munique e Viena, onde chegou a tocar para a imperatriz Maria Tereza, no palácio de Schoenbrunn, seguindo-se depois Bruxelas, Paris e Londres, sempre com salões lotados. Nessa altura compôs as suas primeiras obras, sonatas para violino e cravo. Entre 1770 e 1773, Mozart viajou por toda a Itália. De volta a Salzburgo, Mozart já era dono de uma volumosa obra e foi promovido a Mestre de Capela, embora onde quer que atuasse, fosse obrigado a fazer as refeições junto aos criados.
Entre 1781 e 1786, passou os seus anos mais produtivos, compondo várias óperas importantes como o “O Rapto de Serralho” (1782), “As Bodas de Fígaro” (1786), sonatas para piano, músicas de câmara, em especial os seis quartetos de cordas e diversos concertos para piano. Em 1782, casou-se com Constanze Weber, com quem teve dois filhos. Com ela viveu sempre uma vida de penúria e dificuldades, nunca tinha dinheiro para nada, a tal ponto que, no Inverno, dançavam para se aquecerem. A partir de 1786, mesmo com o sucesso de suas obras, a sua popularidade começou a declinar, tendo enfrentado problemas financeiros e de saúde, atenuados a partir de 1787, quando o imperador José II lhe concedeu uma pensão anual. Neste mesmo ano, estreou a ópera “Don Giovanni”.
No ano de 1791, compôs a sua última a ópera, “A Flauta Mágica” que estreou, estava ele já muito doente e, segundo alguns dos seus biógrafos, acompanhava na cama, as suas árias, como se as estivesse a ouvir e a ver. Em dezembro de 1784, Mozart havia sido iniciado na Maçonaria, pelo que esta ópera, retrata também, do ponto de vista simbólico, uma iniciação ritualística, na medida em que se caracteriza pela ascensão gradual das trevas e da ignorância, à luz do conhecimento, mediante a apologia do bom e do belo, na natureza e no homem.
O elemento principal do primeiro ato desta obra é o amor, o ideal maçónico imemorial, o amor tríplice, o amor a si próprio, ao Criador e ao próximo que tem de ser descoberto e cultivado. Para que tal possa acontecer e este tríplice amor se possa fundir num só, torna-se necessário ambientar a vontade à Iniciação, quando se revela a morte mística, para dar lugar ao renascimento esotérico e ao surgimento de um novo homem munido de um amor divino e iniciático.
Da Flauta Mágica, disse Beethoven, ser “a ópera alemã por excelência,” não só pela música divina e pela original utilização da língua alemã, mas principalmente, por ser uma ardente defesa dos princípios do iluminismo e dos ideais maçónicos. Quem, sendo ou não maçom, tiver visto o filme Amadeus, de Milos Forman, tido o privilégio de assistir ao vivo a esta ópera ou visto o filme de 1985, realizado por Ingmar Bergman, sobre esta obra-prima, não poderá deixar de sentir entrar dentro de si, sem pedir licença, uma enorme alegria e uma forte emoção, por se ver ao espelho numa experiência mística, filosófica e musical verdadeiramente incomparável e inesquecível.
A Flauta Mágica é um apaixonado canto à Fraternidade e ao Amor entre os homens, numa exaltação do Poder da Música, como, quase no final da peça, cantam dois homens: “Graças ao poder da música atravessaremos felizes a sombria noite da morte”. E sim, graças ao poder da música, Mozart continua vivo entre nós, com a sua música a ajudar-nos a atravessar, felizes, os nossos dias de vida até chegarmos à sombria noite da morte.
Nos seus últimos dias de vida, escreveu a missa fúnebre "Réquiem", uma encomenda, mas que ele escreveu como se fosse para a sua morte. Quando morreu, aos 35 anos, em Viena, no dia 5 de dezembro de 1791, o seu corpo foi velado na catedral de Viena, sem nenhuma p***a e enterrado, em cova não demarcada, no cemitério da Igreja de São Marx. A viúva quase não teve dinheiro para o enterrar.

10/01/2025

ATENAS, CASTA DIVA

Pela primeira vez passei o primeiro dia do novo ano fora de Portugal, na Grécia, em Atenas, onde estive poucos dias, mas os suficientes para fazer uma viagem no tempo, ao passado clássico de há três mil anos, mas também, simultaneamente, ao presente do século 21.
Quanto ao passado foi deveras emocionante subir à Acrópole, defronte da colina das Musas, onde jazem fragmentos do que resta dos templos dedicados a divindades, principalmente o Pártenon, templo dedicado à própria deusa Athena, que deu o nome à cidade e contemplar daquele lugar alto, daquela rocha mágica e divina, a cidade branca espraiada entre colinas, tal como Lisboa.
Passei no Ágora, hoje um espaço de comércios e restaurantes, repleto de turistas que como eu, procuravam sentir a presença da história dos Atenienses antigos que lá passeavam, discutiam e viviam, num tempo sem tempo, tão diferente dos atual.
E que dizer do moderníssimo museu da Acrópole, onde se encontra exposto o espólio que subsistiu das muitas e sucessivas destruições que as hordas de exércitos invasores provocaram e que não foi roubado, com destaque neste crime para os ingleses que hoje ainda conservam nos seus museus peças importantes e únicas desse espólio, recusando-se ainda hoje a devolvê-los aos seus legítimos donos.
Percorri também as estreitas ruas da Plaka, o casco urbano mais antigo da cidade, repleto de pequenos comércios, cafés e restaurantes, até à praça Sintagma, situada diante do Parlamento grego e antigo Palácio Presidencial. Foi igualmente emocionante ver o restaurado estádio olímpico onde se realizaram em 776 os primeiros jogos olímpicos da Antiguidade e depois, em 1896, os primeiros Jogos olímpicos da Era Moderna.
No que respeita ao presente vi uma cidade, na fronteira do Oriente e do Ocidente, com laivos de Istambul, parecenças com Lisboa e semelhanças com Roma, ainda que com zonas muito mais degradadas e com muitos mais emigrantes que Lisboa e Roma.
Na verdade, dada a sua localização entre a Europa, a Ásia, o médio Oriente e África e a sua proximidade à Turquia e à Síria, Atenas tem recebido milhares de imigrantes provenientes desses dois países. No fundo, Atenas será, porventura, a cidade europeia mais próxima de qualquer cidade do médio Oriente, facto que não será alheio à ocupação do país, durante quase trezentos anos, pelos turcos otomanos e a sua muito recente independência, apenas em 1830, cimentada através do protocolo de Londres.
Por fim e mudando de assunto, quero chamar a atenção para uma armadilha ignóbil que a câmara de Lisboa colocou aos seus munícipes. Refiro-me ao radar colocado no final da Avenida Infante Santo, a chegar à expo, no sentido N/S, antes de entrar no túnel. Trata-se de uma via rápida, sem semáforos, nem passagens de peões, em declive e onde mesmo sem estar a acelerar, dificilmente se circula a menos de 50Km/hora. Ora, é precisamente esta a velocidade máxima permitida. É desonesto e quase criminoso, uma câmara municipal estar a roubar desta forma os seus incautos automobilistas. Tenham cuidado ao passar por lá e não se deixem roubar.

08/11/2024

O ALARVE AMERICANO

Parece mentira, mas é verdade. Aconteceu mesmo. Donald Trump é, novamente, presidente dos EUA, sem margem de discussão e uma diferença significativa de votos face a kamala Harris. O homem que, em toda a campanha eleitoral, não perdeu uma oportunidade para chantagear e denunciar os seus adversários por, alegadamente, estarem a viciar as eleições, perdeu o pio e canta agora vitória numas eleições em que, pelos vistos, se estavam viciadas, o estavam a seu favor.
Não deixa de me espantar o facto de, mais de metade dos americanos se reverem num louco apalhaçado, um narcisista errático, um empresário arruinado e ruinoso, um vendedor do mitómano sonho americano, elegendo-o como presidente e símbolo do seu país. Um mentiroso compulsivo que os seduziu com as vãs promessas de acabar com a guerra em 24 horas, suster a imigração ilegal, deportando, de imediato, um milhão de imigrantes e, repetindo até à náusea, o slogan fantástico, Make America Grat Again, seja o que for que tal signifique e como se a América já não o fosse. Mas, um facto indesmentível, é que foi nele que votou o povo americano, em todas as suas diversidades e latitudes.
Também não deixa de me surpreender o facto de os americanos, vivendo virados para dentro de si próprios, se esquecerem que foram vagas sucessivas de imigrantes, nos últimos 200 anos, que fizeram a América grande e desejarem agora, pela segunda vez, um presidente que os despreza, humilha e pretende deportar massivamente, sem dó nem piedade.
Acredito, porém, que muitos americanos se sintam hoje envergonhados pelos seus compatriotas terem elegido um criminoso condenado, um misógino militante que, despudorada e publicamente, afirma ir defender as mulheres…mesmo que elas o não queiram. Os americanos puseram, inconscientemente, uma raposa no galinheiro, ou melhor, um Pato Donald, velho e flácido, que irá fazer tudo aquilo que os ventríloquos que o manejam lhe irão dizer para fazer.
Joe Biden tem também culpas no cartório. Foi a sua teimosia, em querer recandidatar-se, apesar da sua vetusta idade e sérias limitações, que não permitiu ao Partido Democrata escolher o melhor candidato e preparar-se com tempo para as eleições. Mas, por outro lado, é também inegável que, não obstante Trump ser um milionário, apoiado pelo homem mais rico do mundo que até ofereceu um milhão de dólares, por dia, a quem subscrevesse uma petição a favor das teses reacionárias do seu candidato, se constatou terem sido os mais pobres, os desempregados e os desiludidos, que votaram Trump e dos quais ele se fazia acompanhar e exibir nos seus comícios, tendo ainda conseguido mais votos de negros, latinos e, pasme-se, de mulheres.
E eram estes americanos pobres e socialmente mais desfavorecidos que viam Kamala ser apoiada e acompanhada nos seus comícios, pela elite intelectual que eles desprezam e pelas vedetas ricas da música e da televisão que eles invejam. E não digo que kamala, não obstante a campanha digna que fez, fosse uma boa candidata ou pudesse ser uma boa presidente. O que eu digo é que Trump, para além da vergonhosa campanha que fez de mentiras e insultos, foi ainda pior candidato e será pior ainda como presidente.
Como num combate de wrestling que os americanos tanto adoram, Trump encenou um discurso agressivo e mal-educado, feito de ódio e ressentimento, mas também protecionista, isolacionista, tocando em pontos muito sensíveis para a população americana como a inflação, a segurança e a imigração. E os americanos também já esqueceram ou não quiseram saber que, há quatro anos, Trump foi o primeiro presidente derrotado, na história dos EUA, que não aceitou a derrota e até a pretendeu reverter pela força, que não procedeu a uma transição pacifica e nem sequer esteve presente na tomada de posse do novo presidente. E pior ainda, enquanto presidente desmentiu os seus serviços secretos e colocou-se ao lado de Putin, dando-lhe razão, num ignóbil ato de vassalagem e admiração.
A democracia, em verdade vos digo, é não só o sistema político mais recente e menos inexperimentado, mas também o mais ingénuo e frágil que existe, pois permite que nele coexistam, livremente e até sejam incensados e promovidos, aqueles que, no mais fundo das suas intenções, o pretendem destruir. Os americanos elegeram assim, porventura, o primeiro presidente autocrata da sua história. Um homem que, há quatro anos, foi o mentor do ataque ao Capitólio, que afirmou não precisar da constituição americana para nada e que os seus principais inimigos eram os países europeus. No século passado, o povo alemão fez o mesmo… também elegeu um louco psicopata e depois… foi o que se viu. Na verdade, a história já demonstrou várias vezes que em democracia o povo nem sempre tem razão, que o povo também erra.
Na autópsia destes resultados eleitorais penso que a principal conclusão a retirar é que, hoje, a América é Trump. O povo americano não quis eleger um presidente, mas sim um tirano ditador, como se fazia no tempo dos Romanos. No meu Alentejo, um homem como o Trump, pela sua natureza egocêntrica e face aos seus comportamentos erráticos, ditos boçais e atitudes irrefletidas, seria chamado de alarve. E sim, na verdade é o que ele é. Um alarve

31/10/2024

OS IMIGRANTES

Já fomos um país de emigrantes, somos agora um país de imigrantes. Ainda temos, naturalmente, portugueses que emigram, mas agora para exercerem funções e atividades mais qualificadas noutros países e recebemos como imigrantes, pessoas de diferentes nacionalidades e geografias, para desenvolverem no nosso país, funções e atividades, que os portugueses já não aceitam, nem querem fazer.
Nos últimos anos todos os grandes setores da economia viram o peso da mão de obra imigrante crescer e têm sido estes trabalhadores a aguentar as áreas de hotelaria e restauração, construção, indústria, agricultura e pescas, comércio e serviços diversos, incluindo os administrativos.
Um estudo recente do Banco de Portugal revelou que, em 2023, havia quase meio milhão de imigrantes, empregados por conta de outrem. Na agricultura, por exemplo, a mão de obra estrangeira pesa já 40%, na hotelaria e restauração 31% e na construção 23%. São trabalhadores maioritariamente brasileiros, indianos, nepaleses, e cabo-verdianos e encontram-se, maioritariamente, nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, na costa alentejana e no Algarve. No total, temos hoje cerca de um milhão de estrangeiros a viver e a trabalhar em Portugal.
A título de exemplo, no comércio temos 36 mil trabalhadores imigrantes para 24 mil portugueses; na construção civil temos 46 mil imigrantes para 14 mil portugueses; na hotelaria, restauração e logística temos 63 mil imigrantes e menos 13 mil portugueses neste setor.
Se formos honestos temos de reconhecer que se não fossem os imigrantes, vários setores da atividade económica, em Portugal, estariam paralisados, com os consequentes prejuízos quer para as empresas, quer para os portugueses, quer para a economia do país. Para além da sua contribuição para o aumento da natalidade e para o aumento das receitas da segurança social, contributos esses que nós, portugueses, tanto carecemos em termos do presente e, principalmente, do futuro.
No entanto, temos assistido a campanhas anti-imigração, visando criar um anátema sobre estes trabalhadores, associando-os, injustamente, a um aumento da insegurança e da criminalidade, que os factos e os números, não só não provam como até desmentem.

E, tal como acontecia, nas décadas de sessenta e setenta, com os nossos emigrantes na França, Alemanha ou Suíça, também as pessoas que imigram para Portugal, vivem em condições muito difíceis, quase nos limites da pobreza, senão mesmo da sobrevivência, trabalhando com condições remuneratórias das mais baixas praticadas no país.
Está na hora de metermos a mão na consciência. Está na hora de, em vez de rejeitar ou acusar, aceitar e agradecer, todo o imenso contributo que os imigrantes estrangeiros nos prestam. Está na hora de TODOS nos colocarmos na pele dos imigrantes, sentir as suas dores e problemas, assumirmos perante eles, um espírito compassivo e de verdadeira fraternidade. Por mim, resumo a minha posição perante os imigrantes numa só palavra, OBRIGADO!

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