26/02/2026
O ESPECTÁCULO DO MUNDO
Sentado, confortavelmente, no sofá da minha sala, assisto todos os dias, ao lamentável espetáculo do mundo e, nas sábias palavras de Shakespeare, à representação dos seus atores, no palco da vida. A televisão de hoje, através dos seus múltiplos canais, nacionais e estrangeiros, generalistas ou informativos, como num teatro, levanta o pano e permite-nos ser, na plateia das nossas casas, espetadores de tudo o que se passa no mundo. Os cenários são quase sempre os mesmos: o nosso país, os EUA, Israel e a palestina, a Ucrânia, a Rússia, o Irão, a China e muitos outros, mas, no fundo, o guião repete-se e parece ser sempre o mesmo.
Os atores deste palco global são políticos que discursam com ensaiada solenidade, comentadores que interpretam os acontecimentos como críticos de arte apressados, celebridades que desfilam vidas polidas até ao brilho da ficção. Especialistas de tudo e de nada, comentadores com ou sem partido, oferecem-nos as suas versões, sempre “definitivas”, dos factos e acontecimentos diários. Há também a gente anónima entrevistada, surpreendida pela câmara no momento exato em que a sua dor ou a sua alegria se tornam conteúdo mediático. Cada um destes atores desempenha o seu papel, sob a luz intensa dos focos, sabendo ou aprendendo, que a visibilidade, o seu pequeno momento de fama é, simultaneamente, poder e fragilidade.
A televisão transforma a realidade em narrativa. Recorta, enquadra, seleciona. Um conflito distante torna-se num drama; uma tragédia complexa cabe num rodapé apressado. Como espectadores, emocionamo-nos, indignamo-nos, partilhamos opiniões. Mas raramente nos perguntamos quem escreveu o texto, quem escolheu o ângulo, quem decidiu que aquela história, e não outra, merecia abrir o telejornal. Assistimos, julgamos, mudamos de canal e somos públicos, mas também figurantes. O palco estende-se para lá do ecrã com excesso de dramatização, encenações manipuladoras e entretenimento, em vez de informação.
Todos reconhecemos ser a televisão um dos meios de comunicação com maior impacto, na forma como percebemos o mundo, não obstante o crescimento da internet e das famigeradas e tóxicas redes sociais. Mas, a televisão também pode exercer uma influência negativa, pela forma como as notícias são apresentadas enfatizando o sensacionalismo, privilegiando acontecimentos violentos ou polémicos para captar audiências, podendo criar uma perceção distorcida da realidade, levando-nos a acreditar que o mundo é mais perigoso ou caótico do que realmente é. Ah! como os jornalistas amam o escândalo e cheiram o sangue das notícias! E, é essa é a razão pela qual, raramente, ouvimos noticias de conteúdo positivo e de coisas boas que aconteçam no mundo porque, para o jornalismo dos nossos dias, quanto pior o teor das notícias, melhor.
Um facto, é que todos os dias, nos diversos canais de informação, somos brindados com horas e horas consecutivas de fogos, incêndios, inundações, desastres, acidentes, crimes, violência, dramas em figuras de gente, comentário político e desportivo até à exaustão. É esta uma maldição que, pacifica e acriticamente, aceitamos quase como cúmplices. Mas também é um privilégio poder assistir aos Jogos Olímpicos, quer de inverno como os que estão agora a decorrer, quer os de verão, a concertos clássicos e óperas de todo o mundo que diariamente vejo na Mezzo, a jogos não só de futebol, mas de muitas outras modalidades que vejo na BTV, assim como a reportagens e debates nas principais cadeias de televisão mundiais.
Na verdade, a nossa opinião forma-se e molda-se ao que vemos, ouvimos e lemos, como escreveu Sophia e não podemos ignorar. Sim, não podemos ignorar, mas deveremos possuir a sabedoria de relativizar e ter o necessário desprendimento face a todo este espetáculo. Mas, infelizmente, existem situações sobre as quais é muito difícil, senão impossível, ter o necessário desprendimento. Refiro-me, por exemplo, à invasão da Ucrânia pela Rússia que perfaz esta semana quatro longos anos. Quatro longos anos de atentados noturnos, diários e criminosos contra civis nas suas cidades. Quatro longos anos de uma gloriosa e corajosa resistência de um povo a defender a sua independência política e territorial. Quatro longos anos de infindáveis sacrifícios pessoais e coletivos, de destruição de casas, escolas e estruturas energéticas, de separação de famílias, morte de crianças nas cidades e de jovens na frente de batalha. Quatro longos anos de provocações e desconsiderações por parte não só do invasor, mas também daquele que deveria ser o seu maior aliado, os EUA, que acaba por sistemática e incompreensivelmente, fazer o jogo do invasor. Como é que o país que era o farol do mundo da liberdade, da democracia, da defesa dos direitos humanos e o mais feroz opositor das ditaduras, se deixou enredar nesta teia de cedências, apoios e negociatas com as piores pessoas do mundo? A resposta, muito à americana, tem apenas três palavras: Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro. Mas, se tiverem dúvidas, leiam, escutem ou vejam o último, discurso de Donald Trump que ao longo de duas horas, foi a palavra que mais vezes, incansável e avidamente, pronunciou. Sim, vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.
José António Rousseau. Depois de trinta anos como Director Geral da APED e de vinte como professor de Marketing no IADE, IPAM e ISEG