09/08/2026
Quantas pessoas nos incomodam?
Porque têm razão,
porque são inconvenientes,
porque nos criticam,
porque são amigos sinceros e nos despertam para o erro,
porque existem,
porque os admitimos como iguais,
porque nos conhecem demasiado,
porque nos levam à paz quando ainda queremos a guerra,
porque nos amarram ao fundo quando estamos demasiado entretidos com a superfície,
porque nos envergonham quando estamos na soberba,
porque nos descobrem na vaidade,
porque aquela pessoa não nos convém naquele momento,
porque há outra com quem queremos estar e não conseguimos,
porque esperamos alguém que não chega,
porque chega alguém que não esperávamos,
porque nos querem quando não queremos,
porque não nos querem quando queremos,
porque falam,
porque se calam,
porque insistem,
porque desistem,
porque ficam,
porque vão embora.
Políticos,
vendedores,
combatentes,
moralistas,
idiotas,
vaidosos,
arrogantes,
jogadores que falham,
treinadores que erram,
condutores que não andam,
pessoas lentas quando temos pressa,
pessoas com pressa quando queremos sossego,
alguém que nos alerta para uma razão que era óbvia e nós não vimos.
Esses são dos piores.
Os que não nos revelam nada de novo,
apenas aquilo que já estava à nossa frente.
Mas depois há eu.
E como me incomoda ser eu.
Principalmente quando sou quem não quero ser.
Quando sou pequeno,
comezinho,
vaidoso,
soberbo,
injusto,
impulsivo,
quando faço aquilo que censuro,
quando repito aquilo que prometi não repetir,
quando percebo tarde,
quando sei e faço na mesma,
quando transformo desejo em razão,
medo em prudência,
orgulho em dignidade,
carência em amor,
teimosia em convicção.
Ah, mas um dia vou acertar.
Desmembrar as atitudes comezinhas,
livrar-me das personalidades idiotas que também vivem em mim,
prender e escorraçar cada indício daquilo que não quero ser,
despir a vaidade,
calar a soberba,
deixar cair a necessidade,
não pedir ao outro que me salve de mim.
E talvez nesse momento o deleite seja só deleite.
Inteiro.
A lucidez suficiente para não precisar de fugir,
não precisar de preencher,
não precisar de procurar alguém apenas porque o silêncio chegou.
E talvez isso seja ser feliz sozinho.