25/10/2021
Porque é importante!!!
No passado dia 20/10/2021, a Ordem dos Médicos emitiu um parecer* ao Projeto de Lei 912/XIV/2 “Reforça a protecção das mulheres na gravidez e parto através da criminalização da violência obstétrica” que nos deixou deveras preocupadas, pela falta de conhecimento do que constitui o abuso e discriminação na assistência à gravidez, parto e pós-parto, confundindo-o com falta de cuidados semelhante à que se verifica nos países em vias de desenvolvimento.
A violência obstétrica são todas as formas de maus-tratos, desrespeito e abusos no contexto da assistência obstétrica (na pré-conceção, procriação medicamente assistida, gravidez, parto e pós-parto). Pode ser exercida por qualquer pessoa implicada no atendimento obstétrico e reveste-se de inúmeras formas, das mais declaradas às mais subtis. Sempre que a autonomia e integridade da mulher ou pessoa grávida é posta em causa, estamos perante VO (ou maus tratos, ou desrespeito e abuso). Curiosamente a obstetrícia continua a ser a especialidade médica com maior taxa de litigância nos tribunais portugueses.
Quando falamos de violência obstétrica, estamos a falar da violação daquilo que está tão claro nas recomendações da Organização Mundial de Saúde, atualizadas em 2018 “WHO recommendations Intrapartum care for a positive childbirth experience”, onde a ***EXPERIÊNCIA*** da mulher é de primordial importância. “Estas diretrizes são um conjunto consolidado de recomendações sobre trabalho de parto e parto de práticas essenciais que devem estar disponíveis a todas as mulheres grávidas e seus bebés durante o trabalho de parto e parto, independentemente do seu ambiente socioeconómico. (...) para garantir que o parto seja, não apenas seguro, mas também uma experiência positiva para as mulheres e suas famílias. Destacamos como o cuidado centrado na mulher pode otimizar a qualidade do trabalho de parto e a assistência ao parto por meio de uma abordagem holística baseada nos direitos humanos.”
A Violência Obstétrica não se cinge apenas ao desempenho da assistência à gravidez em termos de mortalidade materna ou neonatal. Tem a ver com humanidade, evidência científica, respeito pelas escolhas individuais de uma mulher/pessoa grávida num dos momentos mais cruciais da sua vida.
Negar que esta violência existe é uma forma de re-traumatizar tantas e tantas mulheres - e isso não podemos permitir. Nem deixar que as vozes das utentes sejam desacreditadas e ignoradas.
Estamos a preparar um documento mais detalhado sobre este tema, que estará em breve disponível.
Destacamos também o facto de a Ordem dos Médicos continuar a afirmar que não existem queixas provadas de maus tratos - apesar de sabermos que as há. Incentivamos todas as mulheres e pessoas grávidas que foram vítimas de abuso e desrespeito durante a sua gravidez, parto e pós-parto a encaminhar as suas queixas e histórias de parto para:
Ministério da Saúde: [email protected] e [email protected]
Entidade Reguladora da Saúde aqui: https://www.ers.pt/pt/utentes/reclamacoes/
Ordem dos Médicos aqui: https://ordemdosmedicos.pt/formulario-de-reclamacao-do-doente/
*Parecer disponível aqui: https://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063484d364c793968636d356c6443397a6158526c6379395953565a4d5a5763765130394e4c7a464451554e45544563765247396a6457316c626e527663306c7561574e7059585270646d46446232317063334e686279396a595459314d6a686b4e693035595755794c54526c4f575174596a646c5953316d4e32517a4e6a67304d5441305a474d756347526d&fich=ca6528d6-9ae2-4e9d-b7ea-f7d3684104dc.pdf&Inline=true
Ilustração de Julia Kou