28/05/2026
Você atravessou um oceano para f**ar com alguém.
Trouxe na mala o que coube.
E deixou para trás o que não cabia.
Chegando aqui, tudo parecia certo.
A casa já existia.
A rotina já estava pronta.
As pessoas já tinham seus lugares nos almoços em família.
Menos você.
Os amigos são os do outro.
A família é a do outro.
As conversas acontecem ao seu redor, rápidas demais para acompanhar.
Você sorri.
Observa.
Tenta se encaixar.
Em alguns momentos você se sente uma criança, dependente, aprendendo tudo do zero.
Em outros um adulto que precisa legendar a própria existência, explicando quem é, de onde vem, o que gosta.
E nasce assim um tipo de silêncio que não vem da falta de som. Vem da falta de pertencimento.
De não ter amigos com quem dividir desabafar.
De não conseguir se expressar como gostaria.
De depender do outro até para coisas simples.
Migrar por amor também pode ser isso.
Um recomeço que não começa do mesmo ponto para os dois.
Enquanto um já tem história, rotina e referências, o outro precisa construir tudo quase do zero.
E isso pode trazer uma sensação difícil de nomear.
Não é falta de amor.
Mas, às vezes, é solidão.
Com o tempo, as coisas encontram lugar, é claro.
O idioma melhora.
Os caminhos f**am mais familiares.
As relações começam a ser suas também.
Mas esse meio do caminho existe porque amar alguém em outro país também envolve aprender a existir ali. E a existência nem sempre é simples, clara ou escrita em linhas retas.