20/04/2018
AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1.023.063 - RJ (2016/0311909-7)
RELATOR : MINISTRO GURGEL DE FARIA
AGRAVANTE : MUNICIPIO DO RIO DE JANEIRO
PROCURADOR : JOSE MARCOS VIEIRA RODRIGUES FILHO E OUTRO (S) -
RJ163083
AGRAVADO : RELUK EVENTOS DO MILLENIUM LTDA - ME
ADVOGADO : DIEGO BOVE FERNANDEZ ALONSO - RJ130590
DECISAO
Trata-se de agravo interposto pelo MUNICIPIO DO RIO DE JANEIRO contra decisao do Terceiro Vice-Presidente do Tribunal de Justica do Estado, que nao admitiu recurso especial fundado na alinea "a" do permissivo constitucional, e que desafia acordao assim
ementado (e-STJ fl. 420):
Agravo interno. Direito Administrativo. Autorizacao para funcionamento na
"Feira Gestante e Bebe" no Riocentro. Causa que nao e complexa, mas que
tambem nao e corriqueira. Importancia da causa e trabalho do advogado que
justificam a fixacao dos honorarios de sucumbencia em R$ 10.000,00.
RECURSO CONHECIDO E NAO PROVIDO.
Aclaratorios rejeitados (e-STJ fls. 434/437).
No especial obstaculizado, o ora agravante apontou violacao dos seguintes
dispositivos legais:
(a) art. 535, II, do Codigo de Processo Civil de 1973, porque, apesar de opostos embargos de declaracao, o Tribunal de origem nao fez qualquer referencia ao dispositivo legal que regula o arbitramento de honorarios advocaticios contra a Fazenda Publica, tampouco
apreciou, de forma detida, a sua desproporcionalidade frente ao valor atribuido a causa; e
(b) art. 20, §§ 3º e 4º, do CPC/1973, ao argumento de que o valor arbitrado a titulo de honorarios de sucumbencia - R$ 10.000,00 (dez mil reais) - ultrapassa o percentual maximo estabelecido na legislacao de regencia, mostrando-se, pois, exorbitante por se tratar de processo que tramitou em local de facil acesso e, sobretudo, em razao da baixa complexidade da
causa.
Decorrido o prazo legal sem oferecimento de contrarrazoes, o apelo nobre
recebeu juizo negativo de admissibilidade pelo Tribunal de origem (e-STJ fls. 466/468).
Na presente irresignacao, o agravante alega que o recurso obstado atende aos
pressupostos para a sua admissao (e-STJ fls. 477/484).
Sem contraminuta.
Passo a decidir.
Conforme estabelecido pelo Plenario do STJ, "aos recursos interpostos com fundamento no CPC/1973 (relativos a decisoes publicadas ate 17 de marco de 2016) devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele prevista, com as interpretacoes dadas ate
entao pela jurisprudencia do Superior Tribunal de Justica" (Enunciado Administrativo n. 2).
Feita tal anotacao, impoe-se afastar, desde logo, a indigitada ofensa ao art. 535 do CPC/1973, visto que o acordao impugnado apreciou fundamentadamente a controversia, apontando as razoes de seu convencimento, nao se vislumbrando, na especie, qualquer contrariedade
a norma invocada.
Ademais, consoante entendimento jurisprudencial pacifico, o orgao julgador nao esta obrigado a se manifestar sobre todos os argumentos levantados pelas partes para expressar a
sua conviccao, notadamente quando encontrar motivacao suficiente ao deslinde da causa.
Nesse sentido: AgRg no AREsp 750650/RJ, Relator Ministro HUMBERTO
MARTINS, SEGUNDA TURMA, DJe 30/9/2015 e AgRg no AREsp 493652/RJ, Relator Ministro
SERGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, DJe 20/6/2014.
No que se refere ao valor da verba honoraria, em regra, na instancia especial, nao e viavel a revisao do juizo de equidade que foi realizado pelo magistrado para sua fixacao, nos termos do art. 20, § 4º, do CPC/1973, porquanto esse mister, alem de exigir o reexame do historico processual, notadamente para mensurar o trabalho realizado pelo advogado, nao guarda relacao direta com a legalidade da decisao atacada, mas sim com a percepcao do julgador, que e de cunho
estritamente subjetivo.
Excepcionalmente, todavia, esta Corte Superior admite o apelo especial para reapreciar honorarios advocaticios quando arbitrados de forma irrisoria ou exorbitante, pois, nesses casos, a violacao a aludida norma processual exsurge de maneira flagrante, a justificar a intervencao
deste Sodalicio como meio de preservar a aplicacao da lei federal de regencia.
Acerca do tema, assim ja decidiu a Corte Especial:
AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARACAO NO
AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSUAL CIVIL.
HONORARIOS ADVOCATICIOS. POSSIBILIDADE DE REVISAO
EM RECURSO ESPECIAL EM HIPOTESES EXCEPCIONAIS
(EXORBITANCIA OU IRRISORIEDADE). HONORARIOS QUE,
EMBORA ARBITRADOS EM 20% DO VALOR DA CONDENACAO,
COM FUNDAMENTO NO ART. 20, § 4o. DO CPC,
CORRESPONDERIA A APROXIMADAMENTE R$ 60,00.
IRRISORIEDADE MANIFESTA INDEPENDENTEMENTE DE
QUALQUER ANALISE DO FEITO. O PEQUENO VALOR DA
CAUSA NAO PODE MOTIVAR A DESATENCAO A DIGNIDADE
PROFISSIONAL DO ADVOGADO. HONORARIOS FIXADOS EM R$
300,00. AGRAVO REGIMENTAL DO IPERGS DESPROVIDO.
1. A presente controversia versa sobre a possibilidade de revisao da verba
honoraria fixada com base no principio da equidade (art. 20, § 4o. da CPC)
em Recurso Especial, no caso de culminarem em valor aviltante, mesmo
considerando a simplicidade da demanda e a pequena expressao economica
da causa. A Primeira Turma deste STJ, tendo em vista o aparente interesse de
todas as Secoes e a multiplicidade de casos sobre o mesmo tema, por meio de
questao de ordem, resolveu submeter a presente controversia ao crivo da
Corte Especial.
2. E possivel a revisao da verba honoraria arbitrada pelas instancias ordinarias, ainda que com fundamento no art. 20, § 4o. do CPC, quando evidenciado nos autos que esta foi estimada em valores manifestamente excessivos ou infimos, sem que para isso se faca necessario o reexame de provas ou qualquer avaliacao quanto ao merito da lide. Precedentes desta Corte: REsp. 1.188.548/MG, Rel. Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJE 14.08.12; AgRg no REsp. 1.225.273/PR, Rel. Min. CESAR ASFOR ROCHA, DJE 06.09.11; REsp. 1.252.329/RJ, Rel. Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJE 24.06.11; AgRg no Ag 1.209.161/SP, Rel. Min. MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, DJE 01.06.11; AgRg 1.198.911/SP, Rel. Min. ELIANA CALMON, DJE
03.05.10.
3. Para a fixacao da verba honoraria deve ser levada em conta a responsabilidade que todo Advogado assume perante o seu cliente, seja a causa de grande ou de pequeno valor. O valor da causa nao e o unico fator determinante, mas um dos parametros a ser considerado, assim como o grau de zelo profissional, o lugar da prestacao do servico, a natureza e importancia da causa, o trabalho realizado pelo Advogado e o tempo exigido para o
servico, conforme determinacao do § 3o. do art. 20 do CPC.
4. O fato de a demanda versar sobre tema conhecido ou aparentemente simples nao deve servir de motivo para o aviltamento da verba honoraria; nesses casos, muito mais razao existe para o estabelecimento de honorarios em valor condizente, de forma a desestimular as resistencias obstinadas as pretensoes sabidamente legitimas, como o sao aquelas em que a
jurisprudencia esta ha tempos pacificada.
5. O criterio para a fixacao da verba honoraria deve considerar, sobretudo, a razoabilidade do seu proprio valor, nao devendo altear-se a culminancias desproporcionais e nem ser rebaixado a niveis claramente demeritorios, nao
sendo determinante para tanto ap***s e somente o valor da causa.
6. No presente caso, sob qualquer angulo que se veja a questao, a verba honoraria fixada em menos de R$ 100,00 e claramente insuficiente para remunerar condignamente o trabalho profissional advocaticio, e para se chegar a essa conclusao nao e necessario qualquer reexame de materia fatico-probatoria, bastando a ponderacao dos criterios de equidade e de
proporcionalidade.
7. O exercicio da Advocacia envolve o desenvolvimento de elaboracoes intelectuais frequentemente refinadas, que nao se expressam ap***s na rapidez ou na facilidade com que o Causidico as desempenha, cumprindo frisar que, em tal caso, essa desenvoltura (analise juridica da situacao e na producao da peca que a contera) se deve ao acumulo de conhecimento profissional especializado em anos e anos de atividade; deve-se reconhecer (e mesmo proclamar) essa realidade da profissao advocaticia privada ou publica, sublinhando que sem ela a jurisdicao restaria enormemente empecida e ate
severamente comprometida.
8. Agravo Regimental do INSTITUTO DE PREVIDENCIA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL desprovido (AgRg nos EDcl no Ag
1409571/RS, Rel. Ministro NAPOLEAO NUNES MAIA FILHO, CORTE
ESPECIAL, DJe 06/05/2013).
Compulsando os autos, constata-se que o juizo sentenciante julgou parcialmente procedente o pedido da parte autora, confirmando a tutela antecipada, a fim de que lhe fosse outorgado Alvara de Funcionamento para a realizacao da "Feira Gestante Bebe" no periodo de 2 a 7 de junho de 2009, oportunidade em que fixou os honorarios de sucumbencia em R$ 10.000,00
(dez mil reais), sob o seguinte fundamento (e-STJ fl. 330):
Considero a sucumbencia da Parte Autora minima, especialmente
observando a conduta da Administracao que reproduzindo ato ja considerado
ilegal por decisao judicial anterior, obriga nova provacao do Judiciario,
motivo pelo qual condeno o Reu o pagamento dos honorarios sucumbenciais,
arbitrados em R$ 10.000,00 (dez mil reais), alem do ressarcimento das custas
e taxa adiantadas pela Parte Autora.
O Tribunal de origem manteve o valor da verba advocaticia, nos seguintes
termos (e-STJ fls. 421/422):
O presente recurso visa a rediscussao de questoes que ja foram devidamente
apreciadas na decisao recorrida, nos seguintes termos:
"A causa versou sobre a concessao de autorizacao para o
funcionamento da "Feira Gestante e Bebe", realizada em junho de 2009
no Riocentro, tendo a sentenca confirmado a tutela antecipada
concedida. A sentenca constatou que o Decreto nº 27.776/2007, que
limitava o evento a um unico por ano, foi suspenso por decisao judicial
que reconheceu sua inconstitucionalidade e que, apesar disso, foi
editado o Decreto nº 29.881/2008 de identico conteudo.
Considerando que a causa foi proposta no ano de 2009; que, apesar de
a causa nao ser complexa, tambem nao e corriqueira e e importante
pela relevancia da materia discutida e pelo numero de pessoas atingidas
pelo resultado do processo, os honorarios devem ser mantidos em R$
10.000,00 (dez mil reais)."
Assim, deve ser conhecido e negado provimento ao agravo interno,
confirmando-se por seus proprios fundamentos a decisao monocratica
agravada.
Na hipotese dos autos, diante dos fundamentos apresentados no aresto impugnado e do tempo de tramitacao do feito nas instancias ordinarias (quase 7 anos), tenho que a fixacao do valor estabelecido a titulo de honorarios sucumbenciais nao se mostra flagrantemente excessivo, sendo suficiente para remunerar dignamente o trabalho do causidico, sem, todavia, onerar demasiadamente o Erario, sendo, pois, hipotese de se obstar o presente recurso, em face do obice
contido na Sumula 7 do STJ.
Nunca e demais lembrar que, segundo jurisprudencia desta Corte de Justica,
"nas causas em que a Fazenda Publica for vencida ou vencedora, o arbitramento dos honorarios advocaticios nao esta adstrito aos limites percentuais de 10% e 20%, podendo ser adotado como base de calculo o valor dado a causa ou a condenacao, nos termos do art. 20, § 4º, do CPC/1973, ou mesmo um valor fixo, segundo o criterio de equidade" (REsp 1637091/DF, Rel. Ministro HERMAN
BENJAMIN, Segunda Turma, DJe 19/12/2016).
Ante o exposto, com base no art. 253, paragrafo unico, II, "a" e "b", do RISTJ, CONHECO do agravo para CONHECER PARCIALMENTE do recurso especial e, nessa extensao, NEGAR-LHE PROVIMENTO. Sem arbitramento de honorarios sucumbenciais recursais
(art. 85, § 11, do CPC/2015), em razao do disposto no Enunciado n. 7 do STJ.
Publique-se. Intimem-se.
Brasilia (DF), 26 de marco de 2018.
MINISTRO GURGEL DE FARIA
Relator