26/08/2026
AMAR A DEUS POR INTEIRO É ACOLHER O PRÓXIMO POR INTEIRO
“Jesus respondeu: — ‘Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente.’”
Mateus 22:37
Há palavras bíblicas que, por serem muito conhecidas, correm o risco de se transformar apenas em frases bonitas. Nós as colocamos em quadros, publicamos nas redes sociais e repetimos em nossas celebrações. No entanto, algumas dessas palavras são tão profundas que não foram pronunciadas apenas para serem contempladas: foram dadas para reorganizar inteiramente a nossa vida.
Mateus 22:37 é uma dessas palavras.
Quando Jesus declara que devemos amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente, Ele não está oferecendo uma frase motivacional nem propondo uma espiritualidade superficial. Jesus está revelando o centro de toda a vida de fé. Está mostrando que a verdadeira religião não se mede pela quantidade de palavras religiosas que pronunciamos, pelas roupas que usamos, pelos títulos que possuímos, pela frequência com que entramos em um templo ou pela rigidez com que julgamos a vida alheia. A verdadeira fé se manifesta no amor.
E não em qualquer amor.
Jesus fala de um amor inteiro, consciente, encarnado, responsável e transformador.
UMA PERGUNTA FEITA PARA TESTAR JESUS
O contexto dessa passagem é importante. Jesus estava sendo questionado por pessoas que conheciam profundamente a Lei. Um especialista se aproxima e pergunta qual seria o maior mandamento. Não se tratava simplesmente da pergunta sincera de alguém em busca de orientação espiritual. O texto mostra que havia também uma tentativa de colocar Jesus à prova.
A religiosidade daquele tempo possuía muitos mandamentos, interpretações, tradições e discussões. Perguntar qual era o maior mandamento poderia levar Jesus a escolher um ensinamento e, aparentemente, diminuir a importância dos demais.
Mas Jesus não entra na armadilha.
Ele responde citando o coração da fé de Israel, presente em Deuteronômio: amar a Deus com todo o ser. Em seguida, acrescenta o mandamento de Levítico: amar o próximo como a si mesmo. Finalmente, afirma que toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos.
Jesus não despreza as Escrituras. Ao contrário, Ele revela a chave que permite compreendê-las corretamente: o amor.
Toda interpretação bíblica, toda doutrina, toda disciplina religiosa, toda tradição e toda ação da Igreja precisam passar por esse critério. Se uma interpretação produz ódio, humilhação, desumanização, violência ou exclusão, precisamos perguntar seriamente se realmente entendemos o coração das Escrituras.
Porque não existe amor verdadeiro a Deus que autorize o desamor ao próximo.
“COM TODO O CORAÇÃO”
Na linguagem bíblica, o coração não representa apenas os sentimentos. Ele é o centro das escolhas, das intenções e das decisões. Amar a Deus com todo o coração significa permitir que Deus transforme aquilo que desejamos, aquilo que buscamos e a maneira como decidimos viver.
Podemos cantar louvores emocionados e, ainda assim, alimentar preconceitos. Podemos levantar as mãos durante uma oração e usar essas mesmas mãos para apontar, acusar e afastar pessoas. Podemos falar sobre a graça de Deus dentro da igreja e tratar alguém com crueldade fora dela.
Jesus não aceita uma fé dividida.
Amar a Deus com todo o coração significa permitir que a misericórdia divina alcance nossos afetos e desarme nossas hostilidades. Significa perguntar se as nossas convicções estão nos tornando mais amorosos, mais pacientes, mais justos e mais humanos.
Se a nossa religião endurece o coração, alguma coisa está errada.
A presença de Deus não nos torna menos sensíveis à dor humana. Ela nos torna ainda mais sensíveis. Quanto mais conhecemos o coração de Deus, mais aprendemos a chorar com os que choram, a proteger os feridos, a acolher os rejeitados e a nos aproximar daqueles que foram deixados à margem.
“COM TODA A ALMA”
Amar a Deus com toda a alma significa amá-lo com a própria vida. Não apenas durante alguns minutos de oração, mas em tudo aquilo que somos e fazemos.
A espiritualidade cristã não pode ser limitada ao espaço do templo. Ela alcança o modo como trabalhamos, utilizamos nosso dinheiro, tratamos nossa família, cuidamos do nosso corpo, exercemos o poder, participamos da sociedade e nos comunicamos nas redes sociais.
A fé não é um compartimento separado da existência.
Não podemos oferecer a Deus os nossos cânticos e negar-lhe as nossas atitudes. Não podemos confessar Jesus com os lábios e desmenti-lo por meio de comportamentos que ferem a dignidade humana.
Amar com toda a alma também significa compreender que a nossa existência inteira pertence à graça. Deus não ama apenas uma versão editada, escondida ou religiosamente aceitável de nós. Ele nos encontra na verdade daquilo que somos.
Isso é especialmente importante para pessoas que passaram a vida ouvindo que precisariam negar a própria identidade para serem amadas por Deus.
Quantas pessoas LGBTQIA+ foram ensinadas a acreditar que Deus as receberia somente se escondessem uma parte fundamental de sua história? Quantas foram obrigadas a escolher, aparentemente, entre a sinceridade sobre quem são e a possibilidade de permanecer em uma comunidade cristã? Quantas aprenderam a confundir fé com vergonha e santidade com autodesprezo?
Sob uma perspectiva cristã anglicana inclusiva, precisamos proclamar com clareza: ninguém precisa mentir sobre si mesmo para ser alcançado pela graça.
Deus já nos conhece por inteiro.
A conversão cristã não significa apagar a pessoa que Deus criou. Significa abandonar o egoísmo, a mentira, a exploração, a violência, a injustiça e tudo aquilo que impede o amor de florescer. Converter-se não é deixar de ser quem somos; é permitir que Cristo transforme em nós tudo aquilo que impede que sejamos plenamente humanos.
O Evangelho não exige a destruição da identidade. Exige a transformação do coração.
“COM TODA A MENTE”
Jesus também manda amar a Deus com toda a mente.
Isso significa que a inteligência não é inimiga da fé. Perguntar, estudar, interpretar, pesquisar e refletir não são sinais de incredulidade. Uma fé que teme toda pergunta talvez esteja mais apoiada no medo do que na confiança em Deus.
A tradição anglicana nos convida a ler as Escrituras em comunidade e em diálogo responsável com a tradição cristã, a razão, a experiência humana e o discernimento espiritual. Isso não significa diminuir a autoridade da Bíblia. Significa levá-la suficientemente a sério para não transformá-la em uma coleção de frases isoladas, retiradas de seu contexto e utilizadas como armas contra determinadas pessoas.
A Bíblia não nos foi dada para justificar os nossos preconceitos. Ela nos foi dada para testemunhar a ação de Deus e nos conduzir a Cristo.
Jesus é a chave para a leitura cristã das Escrituras.
Por isso, precisamos perguntar: essa interpretação se parece com Jesus? Produz os frutos do Espírito? Gera amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade e domínio próprio? Ou produz medo, vergonha, perseguição, arrogância e desespero?
Os frutos de uma interpretação também revelam a natureza de sua árvore.
Amar a Deus com toda a mente é recusar uma fé intelectualmente desonesta. É reconhecer os contextos históricos dos textos, compreender as diferenças culturais, ouvir os avanços do conhecimento humano e admitir que algumas tradições eclesiásticas podem ter confundido costumes sociais com mandamentos eternos.
A tradição cristã é preciosa, mas nenhuma interpretação humana é igual ao próprio Deus. Toda tradição precisa permanecer sob o julgamento do Evangelho.
A razão não substitui a fé. Ela ajuda a fé a não se transformar em fanatismo.
O SEGUNDO MANDAMENTO É SEMELHANTE AO PRIMEIRO
Jesus não termina sua resposta em Mateus 22:37. Ele imediatamente acrescenta: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.”
O segundo mandamento não é um comentário opcional. Jesus diz que ele é semelhante ao primeiro. Isso significa que o amor a Deus e o amor ao próximo não podem ser separados.
Não há uma espiritualidade vertical legítima sem uma responsabilidade horizontal.
Não podemos dizer que amamos o Deus que não vemos enquanto desprezamos as pessoas que vemos. Não podemos adorar o Criador e humilhar quem carrega sua imagem. Não podemos celebrar a Eucaristia e, ao mesmo tempo, construir muros para determinar quem seria digno ou indigno da graça.
Toda pessoa humana carrega uma dignidade que não depende de nossa aprovação.
Deus não nos entrega o direito de decidir quem merece ser tratado como pessoa. O próximo não é um projeto que precisamos consertar antes de amar. Não é um problema teológico, uma pauta política, uma estatística nem uma ameaça à nossa tradição. O próximo é alguém criado à imagem e semelhança de Deus.
Jesus não disse: “Ame o próximo quando ele se parecer com você.”
Não disse: “Ame o próximo se ele concordar com sua interpretação.”
Não disse: “Ame o próximo depois que ele mudar.”
Jesus simplesmente disse: “Ame.”
O próximo pode ter outra cor, outra nacionalidade, outra condição econômica, outra religião, outra orientação sexual, outra identidade de gênero, outra formação familiar ou outra compreensão política. Pode ser uma pessoa em situação de rua, alguém encarcerado, um migrante, uma pessoa com deficiência, alguém neurodivergente, uma mulher silenciada, uma pessoa idosa esquecida ou alguém profundamente ferido por experiências religiosas.
O amor cristão não pergunta primeiro se o outro merece. O amor se aproxima porque a graça também se aproximou de nós quando nada tínhamos para oferecer.
INCLUSÃO NÃO É INDIFERENÇA MORAL
Algumas pessoas imaginam que uma teologia inclusiva significa afirmar que tudo é permitido e que nenhuma transformação é necessária. Isso não corresponde ao Evangelho.
A inclusão cristã não elimina o chamado à santidade. Ela elimina a utilização de dois pesos e duas medidas.
O mesmo Evangelho chama todas as pessoas — heterossexuais, homossexuais, bissexuais, transgênero, cisgênero, solteiras ou casadas — à fidelidade, ao respeito, à responsabilidade, ao consentimento, à verdade, ao cuidado e à justiça nos relacionamentos.
Não podemos tratar relacionamentos heterossexuais como naturalmente santos, mesmo quando existem violência, dominação, infidelidade e abuso, enquanto consideramos indigno qualquer relacionamento homoafetivo, ainda que nele existam amor, compromisso, fidelidade, respeito e responsabilidade.
A ética cristã precisa olhar para os frutos.
Inclusão não significa chamar o abuso de amor. Não significa tolerar exploração, violência, manipulação ou irresponsabilidade. Significa aplicar a todas as pessoas o mesmo chamado evangélico, sem condenar identidades e sem criar obstáculos que Jesus não criou.
A graça acolhe cada pessoa como ela está, mas não nos abandona ao egoísmo. Ela nos transforma na direção do amor.
A ENCARNAÇÃO E A DIGNIDADE DOS CORPOS
A fé cristã anuncia que o Verbo se fez carne.
Deus não permaneceu distante da experiência humana. Em Jesus Cristo, Deus assumiu um corpo, viveu afetos, conheceu o cansaço, sentiu fome, chorou, tocou pessoas consideradas impuras e permitiu que pessoas marginalizadas se aproximassem dele.
A encarnação nos impede de desprezar os corpos.
Nenhum corpo é erro diante de Deus. Nenhuma pessoa precisa odiar sua aparência, sua história, sua orientação sexual ou sua identidade para ser digna de amor. Nossos corpos podem carregar dores, limitações e marcas, mas também são lugares nos quais a graça de Deus se manifesta.
Jesus tocou os corpos que a religião evitava. Conversou com as pessoas que a sociedade silenciava. Sentou-se à mesa com quem era publicamente desprezado. Não exigiu que os feridos escondessem suas feridas antes de se aproximarem.
A presença de Cristo não constrói círculos de pureza. Ela atravessa fronteiras para restaurar comunhão.
O BATISMO NOS ENSINA A RECONHECER A DIGNIDADE HUMANA
Na tradição litúrgica anglicana, o compromisso batismal nos chama a buscar e servir Cristo em todas as pessoas, amando o próximo como a nós mesmos, lutando pela justiça e pela paz e respeitando a dignidade de todo ser humano.
Essa é uma consequência direta do Evangelho.
A água do Batismo não consagra categorias sociais; alcança pessoas chamadas pelo nome. Diante da fonte batismal, não existem seres humanos superiores e inferiores. Existem pessoas alcançadas pela graça, incorporadas ao Corpo de Cristo e chamadas a uma vida nova.
Quando a Igreja discrimina, ela contradiz aquilo que anuncia no Batismo.
Quando alguém é recebido com a condição de permanecer escondido, calado ou invisível, isso ainda não é plena inclusão. Dizer “você pode entrar, desde que não fale sobre quem é”, significa manter a porta apenas parcialmente aberta.
A inclusão cristã não consiste apenas em permitir que alguém ocupe um banco no templo. Consiste em reconhecer seus dons, ouvir sua voz, acolher sua história, permitir que participe da vida comunitária e tratá-lo como membro legítimo do Corpo de Cristo.
Pessoas LGBTQIA+ não são apenas destinatárias da missão da Igreja. Elas também são parte da Igreja. São pessoas batizadas, discípulas de Cristo, ministras, teólogas, cuidadoras, pregadoras, musicistas, intercessoras e testemunhas da graça.
Não são um tema sobre o qual a Igreja deve falar. São Igreja e precisam falar conosco.
A ORAÇÃO COMUM E A COMUNHÃO ENTRE DIFERENTES
Uma das riquezas da espiritualidade anglicana está na oração comum.
Orar em comum não significa que todos possuam as mesmas experiências, opiniões ou histórias. Significa que pessoas diferentes se colocam diante do mesmo Deus, ouvem juntas as Escrituras, confessam sua necessidade de misericórdia, recebem a paz e se aproximam da mesma mesa.
A comunhão cristã não depende da uniformidade.
A Igreja não é uma reunião de pessoas idênticas. É o Corpo de Cristo, formado por muitos membros. A diversidade não destrói esse corpo; ela revela sua amplitude.
Na mesa do Senhor, todos chegam com as mãos vazias. Ninguém recebe a graça porque possui um currículo moral melhor. Ninguém pode se considerar proprietário de Cristo. É o próprio Jesus quem preside sua mesa e oferece a si mesmo como alimento para seu povo.
A Eucaristia denuncia nossas pretensões de superioridade.
Se compartilhamos o mesmo pão, precisamos aprender a compartilhar a vida. Se recebemos a paz de Cristo, precisamos deixar que essa paz alcance nossos relacionamentos. Se dizemos “amém” diante do Corpo de Cristo, precisamos reconhecer esse corpo também nas pessoas que estão ao nosso lado.
“COMO A SI MESMO”
Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida: Jesus diz que devemos amar o próximo como amamos a nós mesmos.
Isso pressupõe uma relação reconciliada com a nossa própria dignidade.
Muitas pessoas aprenderam que odiar a si mesmas era um sinal de humildade. Foram ensinadas a rejeitar o próprio corpo, a apagar seus afetos e a viver permanentemente envergonhadas. Mas o autodesprezo não é uma virtude cristã.
Humildade não significa acreditar que não temos valor. Significa reconhecer que nosso valor é graça e não motivo de superioridade.
Amar a si mesmo não é narcisismo. É receber a própria vida como dom de Deus. É cuidar do corpo e da mente, reconhecer limites, estabelecer fronteiras diante do abuso, pedir ajuda quando necessário e parar de repetir contra nós mesmos as palavras cruéis que outras pessoas nos ensinaram.
Para uma pessoa LGBTQIA+ que cresceu ouvindo que sua existência seria uma decepção para Deus, amar a si mesma pode ser um profundo ato de fé.
É poder dizer: “Eu não sou um acidente. Eu não sou uma vergonha. Eu sou uma pessoa conhecida por Deus, alcançada pela graça e chamada a produzir os frutos do Espírito.”
Deus não nos chama a amar uma máscara. Ele nos chama a permitir que sua graça alcance a pessoa verdadeira.
UMA IGREJA QUE TAMBÉM PRECISA SE CONVERTER
A conversão não é necessária apenas aos indivíduos. A Igreja também precisa se converter.
Precisamos reconhecer as vezes em que utilizamos a Bíblia para ferir, a doutrina para controlar, a disciplina para excluir e a tradição para proteger privilégios. Precisamos pedir perdão pelas pessoas que foram expulsas, silenciadas ou levadas a acreditar que Deus as odiava.
Não basta dizer que o erro foi de “alguns cristãos”. Quando determinados discursos foram repetidos em púlpitos, catequeses, aconselhamentos e documentos religiosos, precisamos assumir responsabilidade comunitária.
O arrependimento cristão produz frutos.
Uma Igreja arrependida não apenas pede desculpas. Ela muda sua linguagem, revê suas práticas, escuta as pessoas feridas e trabalha para que a violência não continue sendo praticada em nome de Deus.
A teologia inclusiva não é uma concessão feita para acompanhar os tempos. É uma tentativa de retornar ao centro revelado por Jesus: amar a Deus e amar o próximo.
A inclusão nasce quando levamos a sério a encarnação, o Batismo, a Eucaristia, a dignidade da imagem divina e o mandamento do amor.
A CRUZ REÚNE O AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO
A própria forma da cruz nos oferece uma imagem poderosa.
A haste vertical aponta para a nossa reconciliação com Deus. A haste horizontal abre os braços na direção do próximo. Não podemos ficar com apenas uma delas.
Sem amor a Deus, o cuidado com o próximo pode perder sua fonte espiritual. Sem amor ao próximo, o discurso sobre Deus se transforma em abstração religiosa.
Em Cristo, os dois movimentos se encontram.
Na cruz, Jesus não responde à violência com mais violência. Ele revela um amor que se entrega, perdoa e rompe o ciclo do ódio. E, na ressurreição, Deus confirma que a violência, a exclusão e a morte não possuem a palavra final.
É significativo que Jesus tenha sido crucificado fora dos muros, no lugar reservado aos rejeitados. O Cristo excluído se identifica com todos aqueles que foram empurrados para fora dos espaços religiosos, sociais e familiares.
Mas a pedra foi removida.
O Ressuscitado continua removendo as pedras que colocamos diante da vida dos outros.
COMO VIVER ESSE MANDAMENTO HOJE?
Amar a Deus com todo o coração é permitir que a misericórdia transforme nossos afetos.
Amar com toda a alma é colocar a própria vida a serviço do bem.
Amar com toda a mente é estudar, discernir, fazer perguntas e recusar interpretações que transformam a Bíblia em instrumento de violência.
Amar o próximo é defender sua dignidade, inclusive quando ele é diferente de nós.
Amar a nós mesmos é receber nossa existência como dom e permitir que Deus cure as feridas produzidas pela rejeição.
Talvez devêssemos nos perguntar:
Minha maneira de falar sobre Deus faz as pessoas desejarem se aproximar dele ou fugir com medo?
Minhas convicções religiosas estão me tornando mais compassivo ou apenas mais severo?
Eu reconheço Cristo nas pessoas que minha cultura ensinou a desprezar?
Estou disposto a ouvir aqueles que foram feridos pela Igreja?
Tenho utilizado as redes sociais para espalhar paz ou para expor, humilhar e condenar?
Minha ideia de santidade produz vida ou exige que alguém desapareça para ser aceito?
Não basta defender o amor de forma abstrata. Deus não ama abstrações. Deus ama pessoas concretas, com nomes, rostos, corpos, histórias, lágrimas, afetos e esperanças.
O MAIOR MANDAMENTO CONTINUA SENDO O AMOR
Jesus poderia ter escolhido a demonstração pública de poder. Poderia ter colocado a pureza ritual no centro. Poderia ter declarado que o maior mandamento era vigiar os erros alheios.
Mas escolheu o amor.
Não um amor sentimental ou indiferente, mas o amor que busca o bem, pratica a justiça, oferece cuidado, estabelece relações responsáveis, protege os vulneráveis e reconhece a dignidade de cada pessoa.
O amor cristão não significa concordar com tudo. Significa que nenhuma discordância nos autoriza a desumanizar alguém.
O amor não elimina a verdade. Ele nos impede de transformar nossa compreensão da verdade em instrumento de crueldade.
O amor não abandona a santidade. Ele revela que a verdadeira santidade se parece com Jesus.
Por isso, uma comunidade cristã não deveria ser reconhecida pela intensidade de suas condenações, mas pela presença dos frutos do Espírito. Deveria ser o lugar em que pessoas cansadas encontram descanso, pessoas feridas encontram cuidado, pessoas silenciadas encontram voz e pessoas que acreditavam estar fora descobrem que a graça já estava procurando por elas.
Amar a Deus por inteiro significa acolher o próximo por inteiro.
Não apenas a parte que compreendemos.
Não apenas a parte que se parece conosco.
Não apenas a parte que consideramos conveniente.
A pessoa inteira.
Com sua história, sua identidade, seus dons, suas feridas e sua esperança.
Porque foi assim que Deus nos amou: não como abstrações, mas como pessoas reais. Não depois que nos tornamos perfeitos, mas quando ainda precisávamos profundamente da graça.
Que nossas igrejas tenham portas abertas, mesas acolhedoras, púlpitos responsáveis e corações sensíveis. Que ninguém precise escolher entre sua honestidade e sua fé. Que ninguém seja obrigado a esconder quem é para ouvir que Deus o ama.
E que, ao olharem para nós, as pessoas não encontrem uma religião dominada pelo medo, mas uma comunidade moldada por Jesus Cristo.
Porque toda a Lei, toda a esperança profética, toda a missão da Igreja e toda a nossa vida dependem desses mandamentos:
Amar a Deus.
Amar o próximo.
E nunca separar aquilo que Jesus uniu.
ORAÇÃO
Deus de amor e de toda graça,
ensina-nos a amar-te com todo o coração,
com toda a alma e com toda a mente.
Liberta-nos de uma fé fragmentada,
capaz de pronunciar teu nome
e, ao mesmo tempo, ferir aqueles que carregam tua imagem.
Dá-nos um coração compassivo,
uma alma disponível ao serviço
e uma mente aberta ao discernimento.
Perdoa-nos pelas vezes em que transformamos tua Palavra em pedra,
quando ela deveria ser pão;
em muro, quando deveria apontar o caminho;
em instrumento de condenação,
quando deveria anunciar reconciliação e vida.
Cura as pessoas que foram feridas em teu nome.
Acolhe aquelas que se sentiram expulsas de tua casa.
Recorda a cada pessoa rejeitada
que nenhuma palavra humana é capaz de cancelar o amor que vem de ti.
Faz de nossas comunidades lugares de verdade e graça,
justiça e misericórdia,
santidade e acolhimento.
Ensina-nos a reconhecer teu Filho
nos pobres, nos estrangeiros, nos esquecidos,
nas pessoas LGBTQIA+, nas pessoas com deficiência,
nos que duvidam, nos que choram
e em todos aqueles que o mundo deixou à margem.
Que nossa vida anuncie aquilo que nossos lábios professam.
Por Jesus Cristo, nosso Senhor,
que vive e reina contigo,
na unidade do Espírito Santo,
um só Deus, agora e para sempre.
Amém.
Bom dia! Deus abençoe a todos nós!
Fabio Tadeu Rocchi