11/07/2026
No segundo encontro do GEPCrim, recebemos o Dr. Evaldo Gonçalves Cunha, Defensor Público e coordenador regional no Triângulo Mineiro, que nos conduziu por um panorama constitucional e humano da realidade carcerária e dos métodos de remição.
O ponto de partida do debate abordou três Estados de Coisas Inconstitucionais no Brasil:
O sistema prisional, a violência policial e a situação de rua.
São as fases de uma única narrativa de negação de direitos pelo Estado, alimentando estigmas e sustentando um sistema que não reintegra, mas segrega.
A Lei de Execução Penal de 1984 antecipou o espírito da Constituição de 1988, visando a harmônica integração social.
Entretanto há um abismo que reside entre o texto e a realidade, espaço onde o sistema mata.
A remição por trabalho, estudo ou leitura é, na lei, remição de pena. Na prática, é a matéria-prima de um futuro viável.
Quem trabalha aprende uma rotina, habilidades e garante sustento pós-cárcere.
Quem estuda cria repertório além dos muros.
Quem lê descobre-se capaz de pensar e continuar.
Esses meios combatem o dano mais invisível da prisão: a destituição de horizontes.
Quem sai sem esse avanço carrega estigmas e nenhum instrumento para existir em liberdade. Sem a remição, a reintegração vira ficção jurídica.
Ela é a via real para a pena cumprir sua função constitucional.
Dr. Evaldo resgatou a postura de Pepe Mujica: devemos ser organicamente otimistas e intelectualmente pessimistas.
Otimistas na atuação, apoiando toda política que gere dignidade, mesmo que pareça enxugar gelo.
Pessimistas na análise, rejeitando a naturalização da barbárie para manter vivo o debate e a emancipação social.
Encerramos com Erving Goffman: toda instituição total é um ‘mar morto’ com pequenas ilhas de atividades vivas. Elas ajudam o indivíduo a suportar os graves ataques ao eu.
Num mar morto, afinal, qualquer ilha é salvação.
Esse é o compromisso que o Projeto Livre, o GEPCrim, a Universidade Federal de Uberlândia e a Defensoria Pública carregam, de sustentar as ilhas enquanto se enfrentam as condições estruturais que formaram o mar.
João Gabriel Pasqualotti Macedo
Membro do projeto