Taquara em Foco

Taquara em Foco "Taquara em Foco": Um blog de opinião sobre política local, cultura e direito.

Site de opinião que nasce de uma ampliação do temática do site "JuridiQuê?" que tinha uma abordagem mais simples das questões jurídicas cotidianas. Nosso principal objetivo continua sendo tentar esclarecer questões jurídicas, incluído questões políticas, sempre que houver necessidade dentro do debate nacional e, especialmente, regional (Vale do Paranhana e RS). As ideias aqui lançadas não têm o ob

jetivo de ser a "última palavra", mas uma delas. O foco é auxiliar a comunidade a entender as decisões judiciais e fatos jurídicos / políticos e suas consequências, tendo um olhar voltado ao Estado Democrático e de Direito.

​Cada integrante se responsabiliza pelos conteúdos de seus textos.

É inevitável a angústia quando tu te depara comalguns comentários "nas redes". Na publicação sobre a instalação do Banco...
12/06/2026

É inevitável a angústia quando tu te depara comalguns comentários "nas redes". Na publicação sobre a instalação do Banco Vermelho na Câmara de Taquara então...
"É só um banco."
"Não vai mudar nada."
"Gasto desnecessário."
Talvez esse sentimento venha justamente porque estamos falando de uma iniciativa que busca manter viva a memória de mulheres assassinadas pela violência de gênero. Há algo de perturbador em ver um símbolo criado para lembrar vidas interrompidas ser tratado com desdém.

Mas, passada a reação inicial, cheguei à conclusão de que esses comentários revelam algo importante. Na verdade, duas coisas.
A primeira é que ainda falta muita compreensão sobre o problema da violência contra as mulheres. E isso não é uma acusação. É uma constatação.
Quem olha para o Banco Vermelho e enxerga ap***s um banco provavelmente não compreendeu sua função. Ninguém imagina que um objeto colocado em frente à Câmara vá impedir um feminicídio. Não é para isso que ele existe. O Banco Vermelho é um símbolo. E símbolos têm a capacidade de nos lembrar daquilo que uma sociedade não deveria esquecer.

Monumentos não resolvem guerras. Memoriais não acabam com o racismo. Datas de conscientização não eliminam preconceitos. Ainda assim, continuamos criando monumentos, memoriais e campanhas porque sabemos que a transformação social também depende de memória, reflexão e debate público.

A segunda conclusão é mais interessante: A ação funcionou!
Funcionou porque fez as pessoas falarem sobre o assunto.
Funcionou porque gerou apoio, incômodo, concordância e discordância.
Funcionou porque colocou o feminicídio e a violência contra as mulheres no centro de uma conversa que, muitas vezes, só acontece quando alguma tragédia ocupa as manchetes.

E aqui cabe um reconhecimento à vereadora Mônica Facio, que, por meio da Procuradoria Especial da Mulher, decidiu trazer essa pauta para dentro da Câmara. É muito mais fácil tratar ap***s dos assuntos que geram consenso. Colocar em evidência temas que expõem feridas sociais costuma ser um caminho bem menos confortável.
Também merece registro positivo a presença de lideranças como o vereador Guido Mário e Telmo Vieira (que já mereceram críticas aqui no blog por outras questões), porque a violência contra as mulheres não é uma pauta das mulheres, é uma pauta da sociedade.

Outro tipo de comentário apareceu com frequência: a ideia de que, em vez de instalar um banco vermelho, o importante seria endurecer p***s para feminicidas e estupradores.

Não tenho nenhuma dificuldade em defender p***s severas para crimes dessa natureza. Mas me parece estranho imaginar que a sociedade precise escolher entre punição e conscientização, como se uma coisa anulasse a outra. Mas isso quero tratar em outro texto, mais para frente.

No fim das contas, o que mais me chamou atenção não foi o banco.
Foi a reação que ele provocou.
Porque os comentários de apoio mostram que há muita gente comprometida com essa causa. E os comentários de deboche mostram que ainda há muito trabalho a fazer.
De certa forma, ambos reforçam a mesma conclusão: falar sobre violência contra as mulheres, infelizmente, continua sendo necessário.
Talvez mais necessário do que alguns gostariam de admitir.

Por Diogo Corrêa

PL dos Ambulantes: aprovado sem discussão, com poderes discricionários perigososA base governista votou em bloco as emen...
10/06/2026

PL dos Ambulantes: aprovado sem discussão, com poderes discricionários perigosos
A base governista votou em bloco as emendas da oposição e impediu o debate. O resultado é uma lei que dá à prefeitura poder quase ilimitado para decidir quem pode trabalhar. Eu f**aria envergonhado de cobrar taxa de trabalhador ambulante, que já está ali não por opção.

Ontem, 9 de junho de 2026, a Câmara Municipal de Taquara aprovou o Projeto de Lei Ordinária Executivo nº 037/2026, que regulamenta o comércio móvel e itinerante na cidade. A aprovação ocorreu após uma manobra regimental da base governista, capitaneada pelo líder Guido Mário (PP), que requereu a votação em bloco das emendas apresentadas pela oposição. Não houve debate individualizado. Como quase sempre, "patrolaram". Um descalabro.

A oposição, representada pelo vereador Gustavo Luz (PP), havia apresentado seis emendas que tratavam de pontos centrais: substituir licenças por cadastro simplif**ado, garantir renovação automática, acabar com a proibição territorial genérica, eliminar a discriminação por origem, e — o mais importante — vedar que o Executivo criasse, por decreto, novas taxas, restrições ou penalidades além do que a lei prevê. Todas foram rejeitadas em bloco, sem discussão.

O pior: a discricionariedade do §5º do Art. 3º
Enquanto muitos olham para as taxas, o verdadeiro problema mora no Art. 3º, §5º . É um parágrafo que parece burocrático, mas é um "cheque em branco". Ele diz que o Executivo pode criar critérios "complementares" para tudo: enquadramento, fiscalização e isenções.

Na prática, isso signif**a que a prefeitura pode inventar novas regras por decreto, sem passar pela Câmara. Se o governo decidir amanhã que o vendedor de ovos precisa de um registro impossível de tirar, ele decide e pronto. Sem transparência, sem defesa e sem debate.
Art. 3º, §5º: "O Poder Executivo poderá regulamentar critérios complementares de enquadramento, funcionamento, fiscalização e concessão de isenções previstos neste artigo."
A prefeitura pode, por decreto, definir que o vendedor de ovos que usa uma cesta maior do que X centímetros é "estruturado" e precisa de licença. Pode criar critérios de "isenção" que ninguém consegue cumprir.
E o cidadão? Sem recurso. Sem debate. Sem transparência.

O que aconteceu na sessão
Os vereadores de oposição falaram. Todos.
E o vendedor de ovos e alface?
Essa foi uma dúvida que ecoou na sessão. Eis o que entendi:
1. Se o vendedor circula com uma caixa, sacola ou cesta, vendendo ovos e alface crus (sem manipular no local):
✅ Provavelmente se enquadra no "comércio ambulante simplif**ado"
✅ F**a dispensado da licença anual e da taxa
⚠️ Mas pode ser obrigado a fazer um cadastro simplif**ado gratuito

2. Se o vendedor usa carrinho, banca móvel ou estrutura de pequeno porte:
⚠️ Se enquadra no "comércio itinerante estruturado" (inciso II)
⚠️ Precisa de licença anual e paga taxa no primeiro ano
💡 Pode conseguir isenção do segundo ano em diante, se comprovar faturamento mínimo de 70% do limite do MEI (antes era 90% — houve redução)

3. Se o vendedor usa trailer, food truck ou tenda:
❌ Se enquadra na "estrutura móvel estacionária" (inciso III)
❌ Precisa de licença anual, paga taxa, e está sujeito a edital com limitação de vagas

O impacto real: quem vai pagar?
O vendedor de ovos e alface que vem da zona rural para Taquara, com uma cesta na mão, circulando pelas ruas, provavelmente se enquadra no "comércio ambulante simplif**ado" e f**a dispensado da licença — se a prefeitura assim entender.
Se usar um carrinho? Precisa de licença. Paga taxa no primeiro ano.
Se a prefeitura decidir, por decreto, que carrinho de mão é "estrutura de pequeno porte" e não "simplif**ado"? O vendedor está enquadrado, taxado, e talvez sem vaga.
E se a prefeitura, via decreto regulamentar, criar um critério de "isenção" que exige documento que o trabalhador rural não tem? O §5º do Art. 3º permite.

A aprovação do PL 037/2026 é um retrocesso em três sentidos:
1. De conteúdo: cria burocracia onde a Lei de Liberdade Econômica (7.150/2025) manda desburocratizar, dá poder discricionário excessivo ao Executivo, e mantém discriminação por origem e barreiras territoriais.

2. De processo: a votação em bloco das emendas, impedindo debate, é uma violação do espírito democrático da Casa. Legislar sobre trabalho precário sem ouvir quem trabalha, sem discutir alternativas, sem ponderar emendas que traziam soluções — isso não é gestão. É imposição.

3. Lembremos que a Câmara instalou uma Frente Parlamentar sobre o desenvolvimento econômico, mas não teve a capacidade de chamar para conversa essas pessoas que serão afetadas.

A oposição fez o papel dela: apresentou emendas técnicas, fundamentadas, alinhadas à lei vigente. A maioria governista fez o papel de quase sempre: aprovou o projeto do Executivo sem alterar uma vírgula.

Na mesma sessão, a Câmara aprovou a "Semana da Brincadeira". Espero que isso não seja motivo de deboche com o trabalhador que vende ovos na rua. Que não teve voz na Câmara. Que não tem liderança de base para negociar. Que, a partir de agora, depende de um decreto da prefeitura para saber se pode continuar no seu trabalho já precarizado amanhã.

Por Diogo Corrêa

10/06/2026

A farsa do "perigo federal": como a base governista de Taquara sabota a transparência com um argumento falso
Na votação do Projeto de Lei Ordinária nº 021/2026, que propõe QR Codes em placas de obras públicas em Taquara, o vereador Guido Mário (PP) fez um alerta que não resistiu a 30 segundos de pesquisa: "se inserir um QR Code na placa, podemos até perder o recurso". A base governista, é claro, engoliu a narrativa e votou contra.
Só que a história não bate.
O governo federal não proíbe QR Code em placas — ele recomenda. A própria Secretaria de Comunicação Social da Presidência publicou um manual orientando justamente a inclusão de QR Codes apontando para o Portal da Transparência. A Lei Federal nº 5.194/1966 exige placas identif**adoras, mas nunca impediu que a tecnologia as complementasse.

E se alguém ainda tiver dúvida, basta olhar para o Rio Grande do Sul. Porto Alegre tem lei nesse sentido desde 2023. Candelária e Condor aprovaram projetos semelhantes em 2026. Nenhum deles perdeu recurso federal por isso. Nenhum.

O que realmente está em jogo aqui não é uma suposta restrição de Brasília. Parece ser a preguiça de manter um histórico acessível. É o desconforto de ter a população um clique de distância dos contratos, dos valores, dos prazos. É muito mais fácil "jogar a culpa" no Governo Federal do que assumir que, no fundo, a prefeitura simplesmente não quer se responsabilizar pela transparência.
E tome desinformação!

Por Diogo Corrêa

A base aliada da prefeita Sirlei subiu o tom. Explico:Ato 1. A aprovação do Fundo Municipal de Proteção Animal revelou m...
04/06/2026

A base aliada da prefeita Sirlei subiu o tom. Explico:
Ato 1. A aprovação do Fundo Municipal de Proteção Animal revelou mais uma vez um problema que vem se repetindo na Câmara de Taquara: está sobrando maioria e faltando política.
Política com “P” maiúsculo, no melhor sentido da palavra: : conversar, construir entendimento e respeitar quem pensa diferente.

O parecer jurídico apontou sua constitucionalidade e legalidade, mas também recomendou ajustes para dar mais segurança jurídica ao texto.

Se havia urgência para aprovar o projeto e captar recursos, custava a base aliada dialogar previamente com a oposição? Custava explicar que a adequação recomendada pelo jurídico seria feita posteriormente?

A irritação da vereadora Jaimara (PL) foi escancarada: “O projeto está aqui, precisa ser aprovado. Nós não vamos perder esse recurso, por conta do vereador A ou B, o projeto é constitucional e ponto final! Vamos aprovar o projeto!”

Ato 2. Um dos aspectos mais interessantes da discussão sobre as câmeras de videomonitoramento no Bairro Eldorado não foi o projeto em si, mas a reação da base governista às críticas da oposição.

Há meses o vereador Gustavo vem fazendo cobranças duras sobre a forma como as decisões são tomadas no município. Fala de falta de planejamento, de acordos construídos nos bastidores, de critérios pouco transparentes e até de indicações políticas para cargos na administração. Em geral, essas manifestações seguem praticamente sem resposta. A estratégia parecia ser simples: deixar a oposição falar sozinha.

Desta vez foi diferente.

A vereadora Carmem (PSB) respondeu de forma direta, firme e até pessoal. Rejeitou a insinuação de que a instalação das câmeras teria relação com sua atuação política, explicou que a demanda partiu das forças de segurança e cobrou mais responsabilidade do vereador ao fazer acusações sem conhecer todos os fatos.

Os episódios levantam uma questão interessante sobre a dinâmica política da Câmara. A base governista mudou de estratégia?

A resposta veio porque, neste caso, havia uma justif**ativa concreta e facilmente defensável para a decisão do governo? Ou estamos assistindo a uma mudança de postura, em que a maioria deixa de ignorar as críticas da oposição e passa a enfrentá-las diretamente na tribuna?

Ainda é cedo para saber. Mas uma coisa parece evidente nesses dois exemplos: o tom mudou.

Por Diogo Corrêa

Além das falas já rebatidas nos dois textos anteriores publicados, Luciano Hang bradou na mesma entrevista: Santa Catari...
01/06/2026

Além das falas já rebatidas nos dois textos anteriores publicados, Luciano Hang bradou na mesma entrevista: Santa Catarina prosperou porque tem mais liberdade econômica e menos influência da esquerda, enquanto o Rio Grande do Sul teria f**ado para trás por escolhas políticas e ideológicas.

É uma narrativa que seduz pelo caldo ideológico. E como toda narrativa sedutora, ela captura algo real — mas distorce quase tudo ao redor.

Segundo o Índice Mackenzie de Liberdade Econômica Estadual (IMLEE), Santa Catarina pontua 7,63 em liberdade econômica. O Rio Grande do Sul pontua 7,10. A diferença existe. E ela se concentra em três dimensões: gasto do governo, tributação e regulamentação de mercados (nem é tão diferente, né?).

Hang não inventou um problema do nada. A burocracia gaúcha é real. A carga tributária é real. O déficit fiscal estrutural do RS é real. Ignorar isso é tão desonesto quanto reduzir tudo a "ideologia".

Porém, a liberdade econômica não explica sozinha o que aconteceu.

O QUE A HISTÓRIA ECONÔMICA REALMENTE MOSTRA

A diferença entre RS e SC não começou ontem. E não começou com o PT, o PSDB ou qualquer governo recente.

Pesquisadores da UFSC, UFRGS e outras instituições analisaram o processo de desindustrialização na região Sul entre 1996 e 2013. O que encontraram? Os três estados do Sul sofreram desindustrialização relativa, mas de formas distintas.

No Rio Grande do Sul, houve deterioração do tecido industrial até 2006, com estabilização posterior. Em Santa Catarina, a queda foi mais suave e a recuperação mais homogênea entre setores de diferentes intensidades tecnológicas.

Outro estudo, publicado na revista Cadernos Metrópole (SciELO), mostra algo ainda mais relevante: entre 2002 e 2014, houve uma mudança da produção industrial do RS para SC e PR. A participação do RS na indústria regional caiu 4 pontos percentuais em produção e quase 6 em emprego. Santa Catarina ganhou 3 pontos em produção e 2 em emprego.

Isso até pode ter uma carga ideológica, mas o capital, de verdade, olha para a reestruturação espacial que é impulsionada por fatores como logística, custos, proximidade com portos e dinâmica de redes produtivas regionais.

A ESTRUTURA ECONÔMICA DE SANTA CATARINA NÃO NASCEU DE UM DECRETO

Aqui entra o que Hang omite completamente.

Santa Catarina desenvolveu uma estrutura econômica baseada em diversif**ação produtiva descentralizada. Não é um polo único. São múltiplos polos: Joinville (metal-mecânica), Blumenau (têxtil e tecnologia), Florianópolis (software e inovação), Chapecó (agroindústria e cooperativismo), Criciúma (cerâmica), Jaraguá do Sul (eletrodomésticos).

Essa diversif**ação tem raízes históricas profundas. Diferentes correntes de imigração (alemã, italiana, polonesa, ucraniana, açoriana) colonizaram regiões distintas, criando economias regionais autônomas e uma classe média rural sólida que migrou para o empreendedorismo agroindustrial.

O Rio Grande do Sul, por sua vez, teve uma formação econômica diferente. A história da ocupação do solo gaúcho consolidou uma dualidade: de um lado, a grande propriedade fundiária (latifúndio) voltada para a pecuária extensiva e o charque; de outro, a pequena propriedade familiar nas colônias de imigrantes.

Essa herança estrutural não é "escolha ideológica". É história. E a história não se reverte com discurso de inauguração.

A CONTRADIÇÃO QUE HANG NÃO ENXERGA (OU IGNORA)

Se o argumento é que "menos Estado = mais desenvolvimento", como explicar que Santa Catarina também possui:

- Universidades federais de ponta (a UFSC é referência nacional, com 2.693 projetos de pesquisa ativos e R$ 581 milhões captados em 2024);
- Forte investimento público em ciência e tecnologia (R$ 381 milhões em incentivos via Fapesc só em 2024);
- Presença massiva de institutos federais e centros de pesquisa;
- Parcerias universidade-empresa que impulsionam setores como eletro-metal-mecânica, moveleira, agroindústria e tecnologia da informação?

A UFSC mantém parcerias estratégicas com a FIESC, SENAI/SC e Fundação CERTI em áreas como manufatura avançada e indústria 4.0.

Ou seja: o dinamismo catarinense não é apesar do Estado. É em diálogo com o Estado. A diferença não é quanto Estado existe, mas como ele se articula com a economia regional.

Bueno, não se pode negar que o Rio Grande do Sul tem desafios estruturais documentados por décadas:

1. Concentração produtiva: a indústria gaúcha historicamente concentrada em poucos polos (Porto Alegre, Sinos, Pelotas) sofreu mais com a desindustrialização do que a estrutura descentralizada catarinense.

2. Abertura comercial e taxa de juros: pesquisa da UFSM mostrou que, no longo prazo, a produção industrial gaúcha responde negativamente a aumentos da taxa de juros nacional e positivamente à abertura comercial. Ou seja: política macroeconômica federal afeta o RS de forma distinta.

3. Desigualdades regionais internas: o RS tem uma metade norte historicamente menos desenvolvida que a metade sul, uma herança da formação econômica que Santa Catarina não reproduz na mesma intensidade.

Nenhum desses problemas foi causado por "universidades federais demais" ou "especialistas demais". São processos históricos, institucionais e econômicos construídos ao longo de mais de um século.

É mais fácil vender certeza do que vender complexidade, não é?. Frases de efeito mobilizam bases políticas. Análise histórica, não. E aqui nem aprofundei muito o estudo…

Desenvolvimento econômico não funciona no grito. Funciona com planejamento, investimento, ciência, infraestrutura, inovação e — sim — com compreensão honesta da própria história.

O “Véio da Havan” tem direito de defender a liberdade econômica. Mas ele não tem direito de apagar a história para fazer a tese caber.

Santa Catarina não é um laboratório de "menos Estado". É um caso de articulação entre Estado, universidades, empresas e redes produtivas regionais que se construiu ao longo de 150 anos de imigração, colonização e diversif**ação econômica.

O Rio Grande do Sul não é um caso de "esquerda demais". É um estado com desafios estruturais históricos que nenhum governo de curto prazo resolve — e que certamente não serão resolvidos por quem reduz tudo e usa o poder econômico para “fazer a política”.

CHEGAMOS AO FIM DA SÉRIE

Universidades públicas não são inimigas do desenvolvimento. Em Santa Catarina, elas são parceiras dele.

Licenciamento ambiental não é sinônimo de atraso. É sinônimo de soberania sobre o próprio território.

E a história econômica do Sul do Brasil é muito mais complexa do que discursos políticos tentam fazer parecer.

Tiveram mais falas terríveis abordando escala de trabalho e programas assistenciais, tudo carregado de senso comum sem reflexo na realidade, mas esses temas já tratamos aqui no blog.

Para quem quiser conferir e se aprofundar, seguem as referências:

ÍNDICE MACKENZIE DE LIBERDADE ECONÔMICA ESTADUAL (IMLEE), 2026.
Disponível em: https://www.mackenzie.br/noticias/artigo/nid/liberdade-economica-no-brasil-ranking-2026
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Dados comparativos de liberdade econômica entre os estados brasileiros.

PEREIRA, W. M. Mudança Estrutural e Desindustrialização na Região Sul do Brasil: uma análise comparativa entre os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (1996-2013). Dissertação (Mestrado em Economia) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016.
Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/161020
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Análise comparativa da desindustrialização nos três estados do Sul.

TREVISAN, E. A. et al. Perfil Industrial do Rio Grande do Sul e a Hipótese de Desindustrialização. UFSM, Santa Maria, RS.
Disponível em:https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/15980/.../TCC.pdf
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Análise do perfil industrial gaúcho e evidências de desindustrialização.

SILVA, A. N. A Desindustrialização na Região Sul. Cadernos Metrópole, São Paulo, v. 21, n. 45, p. 715-738, 2019.
Disponível em: https://www.scielo.br/j/cadm/a/.../
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Estudo sobre desconcentração industrial do RS para SC e PR entre 2002-2014.

INFORME BLUMENAU. A Diversif**ação Econômica e a Autonomia de Santa Catarina. Blumenau, SC, 2023.
Disponível em: https://www.informeblumenau.com.br/2023/05/25/a-diversif**acao-economica-e-a-autonomia-de-santa-catarina/
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Análise dos polos produtivos e diversif**ação econômica catarinense.

CORADINI, O. C. (org.). Formação e Evolução da Estrutura Agrária no Rio Grande do Sul. SciELO Livros, 2015.
Disponível em: https://books.scielo.org/id/b5zch
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Formação histórica da estrutura agrária gaúcha, latifúndio e colonização.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA (UFSC). Relatório de Gestão 2024: Pesquisa, Inovação e Extensão. Florianópolis, SC, 2024.
Disponível em: https://www.ufsc.br/relatorio-gestao-2024
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Dados sobre projetos de pesquisa, captação de recursos e parcerias.

FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA E INOVAÇÃO DO ESTADO DE SANTA CATARINA (FAPESC). Relatório Anual de Atividades 2024. Florianópolis, SC, 2024.
Disponível em: https://www.fapesc.sc.gov.br/relatorio-anual-2024
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Investimentos em ciência, tecnologia e inovação em Santa Catarina.

TREVISAN, E. A. et al. Impacto da Abertura Comercial e da Taxa de Juros sobre a Indústria Gaúcha: uma análise de longo prazo. UFSM, Santa Maria, RS.
Disponível em:https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/15980/.../TCC.pdf
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Efeitos da política macroeconômica sobre a indústria do RS.

FIESC; SENAI/SC; CERTI. Parcerias Estratégicas em Manufatura Avançada e Indústria 4.0. Relatório de Atividades 2023-2024. Florianópolis, SC.
Disponível em: https://www.fiesc.com.br/parcerias-industria-4-0
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Articulação entre universidade, setor produtivo e inovação tecnológica.

Eu não queria "estragar" o domingo de ninguém, mas vou logo para o segundo eisódio. É comum ver empresários defendendo a...
31/05/2026

Eu não queria "estragar" o domingo de ninguém, mas vou logo para o segundo eisódio. É comum ver empresários defendendo a flexibilização de regras ambientais durante a fase de implantação de um projeto.
Entre 2013 e 2024, desastres naturais no Brasil resultaram em R$ 732,2 bilhões em prejuízos para os municípios. 95% das cidades brasileiras foram afetadas.
Por isso o licenciamento não é um obstáculo ao desenvolvimento. É uma necessidade. Uma forma de proteger a sociedade dos custos que podem surgir quando decisões são tomadas sem planejamento adequado.

E quando ocorre um desastre, aí “ninguém é de ninguém”, né? A reconstrução, na prática, é feita com recursos públicos.

O atendimento às vítimas é feito pelo SUS.
A recuperação das estradas é paga pelos contribuintes.
A assistência social é financiada pelo Estado.

Ou seja: o lucro costuma ser privado, mas os prejuízos frequentemente são socializados.

“Ah, mas os empresários ajudam…” Vamos ao número: As enchentes de 2024 no RS causaram prejuízos estimados em R$ 88,9 bilhões — quase 2% do PIB brasileiro. Segundo o BID, o setor público assumiu 89% dos custos adicionais de atendimento à população após o desastre.

Outro ponto levantado por Luciano Hang foi a crítica à consulta de especialistas.
Quem deveria avaliar os impactos ambientais de um empreendimento bilionário?
Quem estudou hidrologia ou quem nunca estudou? Quem pesquisa clima ou quem não trabalha com o tema? Quem conhece o território ou quem ap***s pretende explorá-lo economicamente?

Especialistas não existem para impedir investimentos. Eles antecipam os riscos que muitas vezes só se tornam visíveis quando já é tarde demais.
O alerta: Um estudo da ANA (Agência Nacional de Águas) classificou as enchentes de 2024 como o maior desastre natural da história do RS. Chuvas com duração, intensidade e abrangência territorial jamais observadas no Brasil. O nível do Guaíba atingiu 5,37m, superando em mais de 60cm o recorde de 1941.

A projeção: Estudos internacionais indicam que a mudança climática pode ter tornado as chuvas intensas duas vezes mais prováveis e aumentado sua intensidade em 6% a 9%. No Sul do Brasil, as cheias extremas podem se tornar até cinco vezes mais frequentes.

Ignorar especialistas porque suas conclusões são inconvenientes não é sinal de pragmatismo. É soltar a corda para o capitalismo destruir o que ainda resta de planeta.

A questão nunca foi escolher entre desenvolvimento e proteção ambiental.
Essa é uma falsa escolha.
O verdadeiro desafio é construir um modelo de desenvolvimento capaz de gerar emprego, renda e investimento sem destruir as condições que tornam a vida possível.

A lógica econômica: Estudos mostram que U$1,00 (dolar) gasto na redução de riscos de desastres gera um retorno médio de U$15,00 em custos futuros evitados. No Brasil, o poder público gasta quase o triplo com os impactos de desastres do que com prevenção.

O Rio Grande do Sul, mais do que qualquer outro estado brasileiro neste momento, deveria compreender essa lição.
Porque quem viveu as enchentes de 2024 sabe que a natureza não negocia com discursos.

Fontes e Referências
Para quem quiser aprofundar, aqui estão as principais fontes utilizadas:
1. BID/CEPAL — Relatório Avaliação dos Efeitos e Impactos das Inundações no Rio Grande do Sul (nov/2024): R$ 88,9 bilhões em prejuízos.
2. CNM (Confederação Nacional dos Municípios) — Panorama dos Desastres no Brasil 2013-2024: R$ 732,2 bilhões em prejuízos, 95% dos municípios afetados. Leia aqui
3. Desastres naturais custam US$ 2,3 trilhões, por ano, 10 vezes mais que antes.
UOL/Atlas Digital de Desastres (MDR) — Desastres com chuvas custaram R$ 149 bilhões entre 2014-2023, alta de 41% em relação à década anterior.

Por Diogo Corrêa

Se alguém tinha dúvida que a inauguração da nova loja da Havan em Taquara seria um ato político, errou feio. Luciano Han...
31/05/2026

Se alguém tinha dúvida que a inauguração da nova loja da Havan em Taquara seria um ato político, errou feio. Luciano Hang protagonizou uma série de ataques e fez comparações que não param em pé. Cabe aqui, então, uma série com 3 episódios para rebater as ideias do famoso empresário.
"O atraso do Rio Grande do Sul são as universidades federais."
Ele também declarou que as universidades seriam "guetos da esquerda", que "colocam ideias erradas na cabeça das pessoas" e que uma pessoa inteligente, ao estudar nesses espaços, "f**a mais id**ta".
É uma afirmação “senso comum”. Mas será que ela resiste a uma análise baseada em fatos?
O problema da tese:
A lógica apresentada pelo empresário é simples: o Rio Grande do Sul teria f**ado para trás porque possui universidades federais.
A lógica global desmente: basta olhar para os países mais desenvolvidos do mundo para perceber que a realidade segue exatamente o caminho oposto.
Os Estados Unidos possuem algumas das universidades mais influentes do planeta. A Alemanha investe pesadamente em pesquisa pública. A Coreia do Sul transformou educação e ciência em política de Estado. A China ampliou maciçamente seus investimentos em universidades nas últimas décadas. Qual a semelhança: Universidades Públicas.

Não existe um único exemplo relevante de país que tenha alcançado desenvolvimento econômico duradouro combatendo suas universidades.

Ao contrário: conhecimento, inovação e pesquisa costumam ser justamente os motores do desenvolvimento. A iniciativa privada não investe em pesquisa. Precisa do lucro e isso não é uma questão moral: ela não é “má”, é a regra do jogo. É o investimento público que resiste, persiste e entrega os resultados.

Quando se fala em universidade pública, muita gente pensa ap***s em salas de aula.
Além de formar médicos, engenheiros, professores, agrônomos etc, são essas instituições que produzem boa parte da pesquisa científ**a brasileira.
Foram universidades públicas, por exemplo, que ajudaram a desenvolver tecnologias agrícolas que transformaram o Brasil em uma potência na produção de alimentos.

São elas que mantêm hospitais universitários que atendem milhares de pessoas.

São elas que estudam enchentes, secas, mudanças climáticas e desastres ambientais.

São elas que desenvolvem pesquisas utilizadas por empresas privadas para inovar e aumentar sua produtividade.

Quando uma empresa procura mão de obra qualif**ada, ela procura profissionais que, em grande medida, foram formados justamente nessas instituições.

Mas e no Rio Grande do Sul?
O caso gaúcho é ainda mais curioso.
As universidades federais do estado estão entre as instituições que mais contribuíram para o desenvolvimento regional nas últimas décadas.

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ajudou a formar gerações de profissionais que atuam em praticamente todos os setores da economia gaúcha. Exemplo: parcerias de longo prazo com empresas como a Petrobras, onde projetos com antecedentes de pesquisa resultam em patentes, empresas incubadas e substituição de fornecedores externos.

A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) foi pioneira na interiorização do ensino superior e se tornou referência nacional em diversas áreas.

A Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) produzem conhecimento estratégico para a agricultura, a saúde, a indústria e a gestão pública.

É difícil encontrar uma atividade econômica relevante do Rio Grande do Sul que não conte com profissionais formados nessas instituições.

Então por que o Rio Grande do Sul enfrenta dificuldades?
Porque o desenvolvimento econômico é muito mais complexo do que um discurso de inauguração. Não precisa acreditar nesse texto. Pesquise sobre.
O Rio Grande do Sul enfrenta desafios históricos relacionados a:
📌infraestrutura;
📌concentração econômica;
📌desindustrialização;
📌crises fiscais;
📌eventos climáticos extremos;
📌transformações do mercado global.
📌etc.
Reduzir tudo isso à existência de universidades federais não é uma análise econômica: é ap***s uma retórica política reacionária.

Se as universidades federais são o problema, a solução seria fechá-las? Então por que nenhum país desenvolvido fez isso? Nenhum! O que eles fizeram foi o oposto: investiram mais. A pergunta que sobra não é se o RS tem universidades demais. É por que ainda ouvimos quem acha que o caminho para a frente é desmontar justamente as instituições que formam quem constrói estradas, trata doentes e pesquisa como enfrentar a próxima enchente, por exemplo.

Nos próximos episódios da série
Episódio 2. Luciano Hang também criticou o licenciamento ambiental e a consulta a especialistas e comunidades afetadas por grandes empreendimentos.
Mas será que licenciamento é ap***s burocracia? Ou é justamente uma das ferramentas que existem para evitar tragédias como aquelas que o próprio Rio Grande do Sul viveu recentemente?
Episódio 3. O RS ficou para trás em comparação com SC. Fato. Mas porque? O que a história realmente explica?

Por Diogo Corrêa

Endereço

Taquara, RS
95600466

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