23/09/2026
O motoboy de Taquara liga o aplicativo antes das sete da manhã. O motorista que a gente chama pra corrida roda o dia inteiro, almoça no carro e sabe que o mês depende de quantas corridas o algoritmo mandar.
Trabalho por aplicativo virou fonte de renda de muita gente na cidade pequena — e virou também o retrato de um problema que ninguém sabe direito como resolver: o patrão que manda nessa gente não tem nome nem endereço. É um algoritmo.
Os dois programas de governo que lideram as pesquisas, cada um do seu jeito, tropeçam no mesmo ponto: o trabalho por aplicativo.
O governo Lula fez mais do que prometer. Sancionou, na semana passada, a lei que garante o Move Brasil — crédito de até R$ 30 bilhões para taxistas, motoristas e entregadores comprarem carro, moto ou bicicleta elétrica, com juros menores para mulheres e prazo de até 72 meses. Dinheiro real, que ajuda quem precisa trocar de veículo para continuar trabalhando.
Mas crédito não é piso. A regulamentação do trabalho por app — o projeto que definiria regras, remuneração mínima e proteção para quem vive disso — está travada na Câmara desde abril. O relatório que está na mesa derrubou o piso de R$ 10 por corrida que o próprio governo defendia. E os trabalhadores, os primeiros interessados, cobram exatamente isso: a remuneração. Muitos nem f**aram sabendo das medidas que o governo anuncia. Crédito para comprar o carro é importante; o que muda o mês de quem vive do app é o quanto cada corrida paga.
E o outro lado? O programa de Flávio Bolsonaro não tem uma linha sobre trabalho por aplicativo. Silêncio total. O que ele oferece, na prática, é a tal “jornada flexível” — o trabalhador decide quantas horas quer trabalhar, recebendo por hora. Só que isso é exatamente o modelo do app: quem liga o aplicativo já “escolhe” quando trabalhar. A diferença é que, no app, essa liberdade vem sem piso, sem garantia, sem quem cubra o risco do dia sem corrida. Propor a “jornada flexível” como solução para o trabalho por app é formalizar o problema, não resolvê-lo.
Vamos ser justos com os dois lados. O governo Lula tentou regular — e o texto travou no Congresso. O Flávio nem tentou: silêncio no programa e cortejo eleitoral à categoria. Um tropeçou no caminho; o outro nem saiu do lugar.
O crédito é real e bem-vindo, mas crédito não substitui remuneração mínima. Regulamentação é o que muda a vida de quem vive do app — e ela não saiu. O trabalhador de aplicativo continua refém de uma decisão que ele não vê nem pode questionar: a decisão do algoritmo.
Regular o aplicativo é necessário. Mas, sozinho, não basta. Porque o problema de fundo não é só o app — é o trabalho precário virando regra.
Pensa comigo. O trabalho por aplicativo cresceu porque a cidade pequena não ofereceu alternativa. Comércio que paga pouco, indústria que não chega, qualif**ação que não existe — o app vira a opção que sobra. Ele é o teto, não o piso. E é isso que a política pública precisa enfrentar.
Enfrentar a precarização não é só regular o que existe. É investir em áreas de maior complexidade e renda: educação técnica, formação profissional, setores produtivos locais que paguem melhor e exijam mais qualif**ação. É fazer com que o trabalho decente — com vínculo, com piso, com futuro — seja a regra, e não a exceção.
E aqui não tem escolha entre um e outro. Quem está no app hoje não pode ser abandonado: precisa de piso, proteção, previdência, crédito. Mas o app não pode ser o destino de uma geração inteira. O Estado precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo: proteger quem está lá dentro e construir a porta de saída de verdade — que não é o contrato mais barato, é o trabalho de maior qualidade.
O voto de outubro decide isso. Decide se o trabalho por aplicativo ganha piso e proteção — ou se continua nas mãos do algoritmo. E decide se a cidade pequena ganha a chance de trabalho de verdade, com complexidade e renda — ou se o app continua sendo o teto.
Talvez o motoboy que liga o app antes das sete não vai poder ler este texto. Mas o voto dele — e o teu — decide o futuro dele.
Quem vai estar lá defendendo o teu futuro?
Por Diogo Corrêa