01/06/2026
Além das falas já rebatidas nos dois textos anteriores publicados, Luciano Hang bradou na mesma entrevista: Santa Catarina prosperou porque tem mais liberdade econômica e menos influência da esquerda, enquanto o Rio Grande do Sul teria f**ado para trás por escolhas políticas e ideológicas.
É uma narrativa que seduz pelo caldo ideológico. E como toda narrativa sedutora, ela captura algo real — mas distorce quase tudo ao redor.
Segundo o Índice Mackenzie de Liberdade Econômica Estadual (IMLEE), Santa Catarina pontua 7,63 em liberdade econômica. O Rio Grande do Sul pontua 7,10. A diferença existe. E ela se concentra em três dimensões: gasto do governo, tributação e regulamentação de mercados (nem é tão diferente, né?).
Hang não inventou um problema do nada. A burocracia gaúcha é real. A carga tributária é real. O déficit fiscal estrutural do RS é real. Ignorar isso é tão desonesto quanto reduzir tudo a "ideologia".
Porém, a liberdade econômica não explica sozinha o que aconteceu.
O QUE A HISTÓRIA ECONÔMICA REALMENTE MOSTRA
A diferença entre RS e SC não começou ontem. E não começou com o PT, o PSDB ou qualquer governo recente.
Pesquisadores da UFSC, UFRGS e outras instituições analisaram o processo de desindustrialização na região Sul entre 1996 e 2013. O que encontraram? Os três estados do Sul sofreram desindustrialização relativa, mas de formas distintas.
No Rio Grande do Sul, houve deterioração do tecido industrial até 2006, com estabilização posterior. Em Santa Catarina, a queda foi mais suave e a recuperação mais homogênea entre setores de diferentes intensidades tecnológicas.
Outro estudo, publicado na revista Cadernos Metrópole (SciELO), mostra algo ainda mais relevante: entre 2002 e 2014, houve uma mudança da produção industrial do RS para SC e PR. A participação do RS na indústria regional caiu 4 pontos percentuais em produção e quase 6 em emprego. Santa Catarina ganhou 3 pontos em produção e 2 em emprego.
Isso até pode ter uma carga ideológica, mas o capital, de verdade, olha para a reestruturação espacial que é impulsionada por fatores como logística, custos, proximidade com portos e dinâmica de redes produtivas regionais.
A ESTRUTURA ECONÔMICA DE SANTA CATARINA NÃO NASCEU DE UM DECRETO
Aqui entra o que Hang omite completamente.
Santa Catarina desenvolveu uma estrutura econômica baseada em diversif**ação produtiva descentralizada. Não é um polo único. São múltiplos polos: Joinville (metal-mecânica), Blumenau (têxtil e tecnologia), Florianópolis (software e inovação), Chapecó (agroindústria e cooperativismo), Criciúma (cerâmica), Jaraguá do Sul (eletrodomésticos).
Essa diversif**ação tem raízes históricas profundas. Diferentes correntes de imigração (alemã, italiana, polonesa, ucraniana, açoriana) colonizaram regiões distintas, criando economias regionais autônomas e uma classe média rural sólida que migrou para o empreendedorismo agroindustrial.
O Rio Grande do Sul, por sua vez, teve uma formação econômica diferente. A história da ocupação do solo gaúcho consolidou uma dualidade: de um lado, a grande propriedade fundiária (latifúndio) voltada para a pecuária extensiva e o charque; de outro, a pequena propriedade familiar nas colônias de imigrantes.
Essa herança estrutural não é "escolha ideológica". É história. E a história não se reverte com discurso de inauguração.
A CONTRADIÇÃO QUE HANG NÃO ENXERGA (OU IGNORA)
Se o argumento é que "menos Estado = mais desenvolvimento", como explicar que Santa Catarina também possui:
- Universidades federais de ponta (a UFSC é referência nacional, com 2.693 projetos de pesquisa ativos e R$ 581 milhões captados em 2024);
- Forte investimento público em ciência e tecnologia (R$ 381 milhões em incentivos via Fapesc só em 2024);
- Presença massiva de institutos federais e centros de pesquisa;
- Parcerias universidade-empresa que impulsionam setores como eletro-metal-mecânica, moveleira, agroindústria e tecnologia da informação?
A UFSC mantém parcerias estratégicas com a FIESC, SENAI/SC e Fundação CERTI em áreas como manufatura avançada e indústria 4.0.
Ou seja: o dinamismo catarinense não é apesar do Estado. É em diálogo com o Estado. A diferença não é quanto Estado existe, mas como ele se articula com a economia regional.
Bueno, não se pode negar que o Rio Grande do Sul tem desafios estruturais documentados por décadas:
1. Concentração produtiva: a indústria gaúcha historicamente concentrada em poucos polos (Porto Alegre, Sinos, Pelotas) sofreu mais com a desindustrialização do que a estrutura descentralizada catarinense.
2. Abertura comercial e taxa de juros: pesquisa da UFSM mostrou que, no longo prazo, a produção industrial gaúcha responde negativamente a aumentos da taxa de juros nacional e positivamente à abertura comercial. Ou seja: política macroeconômica federal afeta o RS de forma distinta.
3. Desigualdades regionais internas: o RS tem uma metade norte historicamente menos desenvolvida que a metade sul, uma herança da formação econômica que Santa Catarina não reproduz na mesma intensidade.
Nenhum desses problemas foi causado por "universidades federais demais" ou "especialistas demais". São processos históricos, institucionais e econômicos construídos ao longo de mais de um século.
É mais fácil vender certeza do que vender complexidade, não é?. Frases de efeito mobilizam bases políticas. Análise histórica, não. E aqui nem aprofundei muito o estudo…
Desenvolvimento econômico não funciona no grito. Funciona com planejamento, investimento, ciência, infraestrutura, inovação e — sim — com compreensão honesta da própria história.
O “Véio da Havan” tem direito de defender a liberdade econômica. Mas ele não tem direito de apagar a história para fazer a tese caber.
Santa Catarina não é um laboratório de "menos Estado". É um caso de articulação entre Estado, universidades, empresas e redes produtivas regionais que se construiu ao longo de 150 anos de imigração, colonização e diversif**ação econômica.
O Rio Grande do Sul não é um caso de "esquerda demais". É um estado com desafios estruturais históricos que nenhum governo de curto prazo resolve — e que certamente não serão resolvidos por quem reduz tudo e usa o poder econômico para “fazer a política”.
CHEGAMOS AO FIM DA SÉRIE
Universidades públicas não são inimigas do desenvolvimento. Em Santa Catarina, elas são parceiras dele.
Licenciamento ambiental não é sinônimo de atraso. É sinônimo de soberania sobre o próprio território.
E a história econômica do Sul do Brasil é muito mais complexa do que discursos políticos tentam fazer parecer.
Tiveram mais falas terríveis abordando escala de trabalho e programas assistenciais, tudo carregado de senso comum sem reflexo na realidade, mas esses temas já tratamos aqui no blog.
Para quem quiser conferir e se aprofundar, seguem as referências:
ÍNDICE MACKENZIE DE LIBERDADE ECONÔMICA ESTADUAL (IMLEE), 2026.
Disponível em: https://www.mackenzie.br/noticias/artigo/nid/liberdade-economica-no-brasil-ranking-2026
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Dados comparativos de liberdade econômica entre os estados brasileiros.
PEREIRA, W. M. Mudança Estrutural e Desindustrialização na Região Sul do Brasil: uma análise comparativa entre os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (1996-2013). Dissertação (Mestrado em Economia) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016.
Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/161020
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Análise comparativa da desindustrialização nos três estados do Sul.
TREVISAN, E. A. et al. Perfil Industrial do Rio Grande do Sul e a Hipótese de Desindustrialização. UFSM, Santa Maria, RS.
Disponível em:https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/15980/.../TCC.pdf
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Análise do perfil industrial gaúcho e evidências de desindustrialização.
SILVA, A. N. A Desindustrialização na Região Sul. Cadernos Metrópole, São Paulo, v. 21, n. 45, p. 715-738, 2019.
Disponível em: https://www.scielo.br/j/cadm/a/.../
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Estudo sobre desconcentração industrial do RS para SC e PR entre 2002-2014.
INFORME BLUMENAU. A Diversif**ação Econômica e a Autonomia de Santa Catarina. Blumenau, SC, 2023.
Disponível em: https://www.informeblumenau.com.br/2023/05/25/a-diversif**acao-economica-e-a-autonomia-de-santa-catarina/
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Análise dos polos produtivos e diversif**ação econômica catarinense.
CORADINI, O. C. (org.). Formação e Evolução da Estrutura Agrária no Rio Grande do Sul. SciELO Livros, 2015.
Disponível em: https://books.scielo.org/id/b5zch
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Formação histórica da estrutura agrária gaúcha, latifúndio e colonização.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA (UFSC). Relatório de Gestão 2024: Pesquisa, Inovação e Extensão. Florianópolis, SC, 2024.
Disponível em: https://www.ufsc.br/relatorio-gestao-2024
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Dados sobre projetos de pesquisa, captação de recursos e parcerias.
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA E INOVAÇÃO DO ESTADO DE SANTA CATARINA (FAPESC). Relatório Anual de Atividades 2024. Florianópolis, SC, 2024.
Disponível em: https://www.fapesc.sc.gov.br/relatorio-anual-2024
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Investimentos em ciência, tecnologia e inovação em Santa Catarina.
TREVISAN, E. A. et al. Impacto da Abertura Comercial e da Taxa de Juros sobre a Indústria Gaúcha: uma análise de longo prazo. UFSM, Santa Maria, RS.
Disponível em:https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/15980/.../TCC.pdf
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Efeitos da política macroeconômica sobre a indústria do RS.
FIESC; SENAI/SC; CERTI. Parcerias Estratégicas em Manufatura Avançada e Indústria 4.0. Relatório de Atividades 2023-2024. Florianópolis, SC.
Disponível em: https://www.fiesc.com.br/parcerias-industria-4-0
Acesso em: 01 jun. 2026.
→ Articulação entre universidade, setor produtivo e inovação tecnológica.