03/09/2026
Filtrar as emoções para proteger
Bernadete Schleder dos Santos
Advogada e professora universitária
A violência doméstica tomou conta dos noticiários. É tema de encontros, cursos e campanhas. Quase diariamente tomamos conhecimento de um novo feminicídio no Brasil, muitas vezes seguido do suicídio do agressor. Sequer me atrevo a citar dados estatísticos, porque entre a elaboração deste texto e sua publicação, esse número já terá aumentado.
A publicidade da violência doméstica escancara uma prática antiga, antes velada dentro dos lugares privados onde não ousávamos interferir. Porém, preocupa-me a banalização pela divulgação diária dos fatos que podem acabar sendo naturalizados. Acabamos por consumir essas tragédias como um espetáculo, nos sensibilizando de fato apenas quando atingem nosso grupo familiar ou de amizades.
Preocupa-me também o nosso papel como operadores do Direito das Famílias, testemunhas dos litígios familiares. Muitas vezes o resultado do processo gera um conflito maior que o de origem. A guarda dos filhos é disputada como direito de propriedade, a partilha dos bens como vingança e a pensão alimentícia como punição. Situações que, por omissão, descuido ou incompetência do sistema, podem resultar na violência que vira manchete.
De quem é a responsabilidade? Falta de preparo de advogados, juízes, promotores, serventuários? Falta de equipes multidisciplinares — psicólogos, assistentes sociais, mediadores — mais voltadas à questão humana e não apenas à jurídica? Culpa do sistema como um todo?
Nós, seres humanos, temos dificuldade em lidar com frustrações e fracassos. Esse desequilíbrio emocional, quando não entendido pela família, sociedade e pela Justiça, acirra o desentendimento entre as partes envolvidas.
Fabrício Carpinejar, na crônica “Antes das Fotografias”, publicado em 2011, apresenta preciosa sugestão aos casais que se separam: encarar o fim sob o ponto de vista dos filhos:
“Todos, quando pequenos, sofrem com o divórcio dos pais, indicativo do trauma, término da idealização e receio de parar num orfanato. E todos, quando maduros, consideram a separação necessária e natural. É impressionante o quanto nos esforçamos para manter os pais juntos, e não realizamos quase nada pelo nosso casamento na vida adulta.”
“E se lutássemos para entender nossa esposa como defendemos nossa mãe? Se realizássemos metade da birra feita com o pai durante a despedida de nossa mulher? Se trocássemos o orgulho da cobrança pela cumplicidade emocionada do erro? Se fôssemos meninos para sempre, nenhuma separação seria fácil. O amor não morreria fácil. O papel vegetal protegeria as fotos.”
Um simples cuidado, como é o uso do papel vegetal sobre as fotos, filtrando nossas emoções e protegendo o valor do afeto acima das frustrações, deveria existir em nome da família que permanece, mesmo após a separação dos casais.
( Diário Santa Maria, 1 de setembro de 2026)