09/11/2025
🧩Desde criança, as pessoas diziam que eu parecia triste.
Diziam que eu vivia de cabeça baixa, que o meu olhar era distante.
E talvez elas tivessem razão, eu realmente não fazia contato visual.
Eu andava olhando pra baixo quase o tempo todo.
Mas não era tristeza.
Era apenas uma forma de me proteger, o meu jeito mais confortável de estar no mundo.
Quando fui ao Congresso Autismo na Vida Adulta, ouvi um palestrante descrever exatamente isso:
que o autista, ao tentar encarar alguém, já fotografou aquele rosto mil vezes.
Cada traço, cada movimento, cada detalhe.
E isso gera uma exaustão mental enorme.
O não sustentar o olhar não é desinteresse, é uma maneira de descansar o cérebro, de encontrar conforto.
Eu me identifiquei profundamente com essa fala. Sou uma pessoa que, quando olha pra um objeto, desenha ele várias na mente.
Quando chego ao consultório da minha psicóloga, reparo nas cores, nos livros,
na forma como tudo está disposto…
Mas encará-la é a parte mais difícil.
Quando o faço, é como se o meu cérebro fotografasse tudo ao mesmo tempo e isso, além de cansativo, pode ser constrangedor pra quem está à minha frente, e muitas vezes consigo sem querer deixar a pessoa constrangida por fotografar tudo.
Hoje, eu compreendo o que acontecia e por que as pessoas diziam isso.
Mas agora eu sei que o meu olhar para baixo ou desviar o olhar é o meu refúgio. Não é fuga. Não é tristeza. É apenas o meu jeito autista de encontrar paz em meio a tanto estímulo. 💙
E aqui eu deixo claro: não estou romantizando o autismo, nem comparando níveis. O que compartilho neste espaço é a minha vivência pessoal, a descoberta, o entendimento e o aprendizado diário de viver dentro do espectro.
Cada autista é único, e essa é apenas a minha forma de existir e compreender o mundo. 💙