11/06/2026
Existe uma sobrecarga sobre a maternidade que ainda é tratada como se fosse apenas uma questão de organização. Como se bastasse uma agenda melhor, um aplicativo de produtividade, acordar um pouco mais cedo ou dormir um pouco mais tarde.
Mas há dias em que eu sinto dor no peito.
Uma dor física mesmo, mas a cardiologista disse que está tudo em ordem. Uma falta de ar que aparece quando estou atolada de prazos no trabalho, sendo cobrada por clientes, escola, médicos, impostos, pela casa, pela vida. Quando estou estudando para a prova da 5ª série enquanto lembro que não paguei uma guia, que esqueci de responder um e-mail importante e que existem três prazos processuais batendo à porta.
Há uma criança que precisa de mim. Uma criança neurodivergente, que demanda cuidados específicos, terapias, acompanhamento, previsibilidade. E eu sou mãe solo.
Não existe revezamento. Não existe “agora é a sua vez”. Não existe uma rede de apoio pronta para absorver as ausências inevitáveis da vida adulta. Existe apenas a matemática impossível dos dias: se eu entrego o prazo, a louça f**a na pia; se eu organizo a casa, atraso o trabalho; se consigo estar presente na terapia, carrego a culpa pelo e-mail não respondido; se descanso, me sinto negligente.
Outro dia ouvi que eu me dedico pouco ao escritório. Que precisaria trabalhar mais para aumentar a minha renda. Eu não respondi. O que se responde a isso?
Que o meu dia começa antes das seis da manhã? Que muitas vezes termina perto da meia-noite? Que, nesse intervalo, eu exerço profissões que nunca aparecerão em currículo algum: motorista, acompanhante terapêutica, professora de reforço, administradora da casa, responsável pelas contas, pelas consultas, pelas listas de material, pelas roupas, pelas refeições, pelas preocupações?
Que, às vezes, quando tudo finalmente silencia, eu me vejo rolando infinitamente vídeos de bebês e gatinhos, tentando anestesiar um cérebro que já não consegue produzir mais nada? E que, mesmo nesses minutos de distração, a culpa se senta ao meu lado para lembrar que eu deveria dormir imediatamente, porque em menos de seis horas tudo começará de novo? >>> continua nos comentários >>>