31/08/2026
Uma nação que exige de um idoso de noventa anos domínio da tecnologia para acessar direitos básicos não pode se autodenominar desenvolvida. O que se apresenta como modernização, muitas vezes, esconde uma política silenciosa de exclusão social.
No Brasil de hoje, a digitalização acelerada dos serviços públicos e privados transformou aplicativos, senhas, QR Codes e plataformas eletrônicas em verdadeiros portões de acesso à cidadania. Entretanto, milhares de idosos, justamente aqueles que dedicaram uma vida inteira ao trabalho, à construção de suas famílias e ao desenvolvimento do país, passaram a enfrentar uma nova forma de analfabetismo: o analfabetismo digital.
Agendar uma consulta no SUS, acessar benefícios previdenciários, resolver questões bancárias ou simplesmente pagar uma conta tornou-se um desafio para quem não domina as ferramentas tecnológicas. Muitos dependem da boa vontade de filhos, netos ou vizinhos — quando essa rede de apoio existe. Quem não a possui é empurrado para a invisibilidade e para a perda gradual de sua autonomia.
A tecnologia, que deveria democratizar o acesso aos serviços e reduzir desigualdades, acaba aprofundando as distâncias sociais quando substitui completamente o atendimento humano. Eficiência administrativa não pode significar abandono dos mais vulneráveis. Um Estado que transfere ao cidadão toda a responsabilidade de se adaptar ao mundo digital, sem oferecer alternativas acessíveis, falha em seu compromisso constitucional de garantir igualdade e dignidade.
O problema não está na inovação, mas na forma como ela é implementada. Modernizar não significa eliminar o atendimento presencial, nem transformar o acesso aos direitos em privilégio de quem possui smartphone, internet e alfabetização digital. Significa criar mecanismos que incluam todos os cidadãos, respeitando suas diferentes realidades.
O verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade não se mede pela quantidade de aplicativos disponíveis, mas pela capacidade de garantir que ninguém seja deixado para trás. Quando um país aceita que seus idosos enfrentem barreiras para exercer direitos fundamentais, não está avançando civilizatoriamente. Está apenas tornando mais conveniente ignorar aqueles que construíram a história que hoje sustenta o presente.
31/08/2026.