22/04/2025
Antes da pandemia, a empresa era quase uma extensão de nossas vidas, nossa segunda casa, onde passávamos 9 das 24 horas do dia.
O ambiente corporativo pulsava com interações humanas. Em algumas empresas, tínhamos a oportunidade de conviver com praticamente todas as áreas e pessoas, e isso mantinha nossa mente alerta, guardando nomes, telefones, ramais e até feições.
Nos fóruns, encontrávamos colegas advogados, juízes e cartorários, e essa troca constante alimentava nossa memória afetiva. A pandemia, porém, nos empurrou para dentro de casa, nos isolou. De repente, estávamos sem os encontros casuais no corredor, sem as conversas improvisadas, sem aquele “despacho” frente a frente com o juiz.
Nossos celulares e notebooks passaram a ser nossa memória – uma memória seletiva, fragmentada, restrita aos gigabytes disponíveis.
Guardamos apenas o essencial e descartamos o que não parecia ter utilidade imediata. E, assim, sem perceber, deixamos de armazenar detalhes que um dia fizeram parte de nossa vida cotidiana.
A revolução digital tomou conta de tudo: processos 100% online, cartórios eletrônicos, consultas médicas virtuais, reuniões em vídeo, assinaturas digitais, assembleias virtuais. Até crianças e idosos precisaram se adaptar a essa nova realidade tecnológica. Foi uma guinada abrupta e definitiva – nossa vida analógica foi se dissolvendo diante das telas.
E, só agora, revisitando meus contatos no LinkedIn, percebi o impacto que essa transição teve na minha memória afetiva corporativa. Ao olhar nomes e rostos familiares, reconheci, vagamente, histórias e momentos que pareciam adormecidos. Minha memória demorou um pouco, mas, enfim, foi ativada e me levou ao “arquivo humano” onde essas pessoas estavam guardadas.
Cheguei à conclusão de que a memória afetiva corporativa continua viva, mesmo que silenciosa, esperando apenas um gatilho para se manifestar. Ela pode nos reconectar com os laços que criamos na era analógica – laços que o digital nunca conseguiu replicar por completo.
E você? Como está sua memória afetiva corporativa?
Ainda consegue acessar seu arquivo humano?
Talvez valha a pena refletir sobre o quanto nos distanciamos uns dos outros – perdidos em um mundo sem tato, sem contato, com o olhar preso à tela, enquanto o coração busca, ainda que silenciosamente, as memórias que um dia nos fizeram sentir mais humanos.
By Deka