26/08/2026
Conviver diariamente com o luto dos meus clientes não me preparou para o meu.
Durante anos, acompanho famílias justamente quando a ausência começa a exigir decisões. Inventários, documentos, patrimônio, urgências, conflitos, providências que não esperam o coração entender o que aconteceu.
Eu conhecia o luto pelo lado de quem precisava ajudar a organizar o que ficava.
Há quase dois anos passei a conhecer pelo lado de quem ficou e descobri que existe uma distância imensa entre compreender racionalmente a dor de alguém e sentir a própria vida dividida entre o antes e o depois.
Primeiro minha mãe se foi. Agora, me pai nos deixou.
De repente, todas aquelas expressões tão familiares ao meu trabalho deixaram de ser palavras jurídicas e passaram a carregar o rosto deles.
Talvez essa tenha sido uma das descobertas mais duras destes últimos tempos: a vida prática não respeita o tempo do luto. Enquanto uma parte de nós ainda espera ouvir a voz de quem se foi, outra precisa assinar documentos, resolver contas, tomar decisões, cuidar de tudo aquilo que a morte deixou interrompido.
Tenho feito isso.
Mas entre uma providência e outra, ainda sou apenas uma filha tentando compreender como alguém tão presente pode, de um dia para o outro, existir somente nas fotografias, nas lembranças, nos gestos que ficaram em nós.
Passei tantos anos procurando oferecer segurança às famílias que atravessavam esse momento. Hoje entendo, de uma maneira que jamais desejaria aprender, que muitas vezes o maior esforço não está em organizar aquilo que a pessoa deixou.
Está em aprender a continuar existindo sem ela.
Essa fotografia é de muitos anos atrás. Eu ainda tinha aparelho nos dentes e ele ainda tinha uma vida inteira pela frente.
E continua sendo, para mim, o mais lindo de todos. ❤️