22/07/2026
Durante décadas, o inventário era um processo relativamente previsível: imóveis, contas bancárias, veículos, joias. Bens que se veem, se avaliam e se partilham com base em regras consolidadas. Hoje, parte relevante do patrimônio de uma pessoa existe apenas no ambiente digital e a lei ainda não acompanhou essa realidade.
O Superior Tribunal de Justiça criou, em outubro de 2025, a figura do inventariante digital: um profissional responsável por identificar, separar e dar destinação adequada aos bens digitais do falecido dentro do processo de inventário. A decisão, relatada pela ministra Nancy Andrighi, determinou que os ativos com valor econômico podem ser acessados pelos herdeiros, mas os de caráter privado e íntimo, não. Enquanto o Congresso não aprova uma lei específica, as famílias precisam abrir ação judicial para tratar da herança digital, anexada ao inventário tradicional.
O que entra nessa conta? Senhas de acesso a contas bancárias digitais, criptomoedas (inclusive as mantidas em carteiras autocustodiadas, cujas chaves privadas podem se perder com o titular), perfis em redes sociais com valor econômico, canais no YouTube com monetização ativa, milhas aéreas acumuladas, contas em plataformas de jogos, arquivos em nuvem e pontuação em programas de recompensa. O PL 4/2025, que reforma o Código Civil, já prevê expressamente que todos esses bens integram o espólio do falecido.
Há duas implicações práticas imediatas. A primeira: se você tem ativos digitais com valor econômico (e a maioria das pessoas tem mais do que imagina) o planejamento sucessório precisa contemplá-los. Isso inclui deixar registrado onde estão, como são acessados e qual a vontade do titular sobre o que deve acontecer com eles. A segunda: se você está conduzindo ou vai conduzir um inventário, a ausência de inventariação dos bens digitais pode significar que parte do patrimônio do falecido simplesmente desaparece porque ninguém sabia que existia ou como acessar.
O patrimônio digital não é ficção científica. É realidade jurídic e está começando a ser tratada como tal.