26/02/2026
São tantas camadas em uma frase.
A fala da magistrada aposentada não foi apenas infeliz? foi reveladora.
Ela expõe uma cegueira simbólica incompatível com quem integrou o ápice do Poder Judiciário. Quem ocupa esse lugar não fala como indivíduo comum. Fala a partir de uma instituição que decide sobre liberdade, patrimônio e dignidade.
Em um país onde milhões sobrevivem entre transporte precário, crédito abusivo e ausência de serviços básicos, transformar custos funcionais em lamento público não é só inadequado, é socialmente dissonante.
Mais grave: há uma evidente incapacidade de leitura do contexto brasileiro. O Brasil é uma das sociedades mais desiguais do mundo, marcada por concentração de renda histórica, racismo estrutural e segregação urbana. Ignorar esse pano de fundo ao falar publicamente é demonstrar desconexão com a realidade sobre a qual se exerce autoridade.
Em democracias desiguais, a linguagem do poder não pode ser ingênua. Quando falta densidade histórica e responsabilidade simbólica, não é apenas a frase que se desgasta, é a própria instituição que perde estatura.
E instituições que perdem estatura, em sociedades frágeis, perdem legitimidade.