30/09/2026
“Eu tenho pânico de barulho de fechadura.”
Essa frase é repetida muitas vezes pelas minhas clientes, nas consultas e conversas que temos e eu perdi as contas de quantas vezes escutei isso e fiquei pensando no que signif**a sentir medo de uma coisa tão cotidiana quanto alguém chegar em casa...
Estou lendo Trauma e Recuperação, da Judith Herman, e recomendo muito ( com todo cuidado que o tema exige, ok?) . O livro tem sido importante pra eu entender mais sobre trauma e sobre o transtorno de estresse pós-traumático, que é o diagnóstico que mais comum entre as minhas clientes e entre mulheres que viveram a violência Ao longo da leitura, encontro descrições que me fazem lembrar de muitas das nossas conversas e compreender melhor como a violência pode atingir até a possibilidade de descansar dentro da própria casa.
Um dos trechos fala justamente de como sons remotamente relacionados à violência, como uma sirene ou uma porta batendo, podem provocar um medo imenso. Aquela sensação de que alguma coisa ruim está sempre prestes a acontecer. Pra quem aprendeu a ter medo de quem entrava pela porta, o barulho da fechadura pode ser suficiente pra colocar o corpo inteiro em alerta.
É difícil pensar no quanto a violência pode continuar ocupando a vida de uma mulher. O trauma pode se tornar crônico, e até depois de ela conseguir estar em segurança o medo pode permanecer. Por isso, fazer terapia, ter uma rede de apoio e poder compartilhar essas dores com pessoas em quem se confia é tão importante.
Ninguém deveria sentir pânico de barulho de fechadura, pelo contrário! Casa deveria ser lugar de conforto, de descanso e de afeto, lugar que a gente deveria poder ouvir a porta abrindo e sentir alegria porque os nossos amores chegaram bem, porque estão em casa, seguros.
Chegar em casa deveria ser um alívio e ouvir alguém chegar deveria poder signif**ar que vem um abraço e a companhia de quem a gente ama.
Se tu sente o contrário disso, escuta teu coração, talvez seja hora de buscar ajuda.