03/06/2022
GREVE DE VITÓRIAS
Embora o futebol tenha sido inventado na Inglaterra, quando se fala em greve nas quatro linhas, nossos olhos se voltam naturalmente para a Argentina, que protagonizou uma das maiores greves de futebolistas registradas no mundo, em 1948.
Os grevistas postulavam a criação de um seguro social para os jogadores, repasse de parte da renda dos jogos para os atletas, entre outras reivindicações, e, sobretudo, pelejavam contra o piso salarial instituído pelo governo Juan Perón. Segundo Di Stéfano, um dos maiores jogadores argentinos de todos os tempos, a greve foi uma maneira de lutar por melhorias nas condições de trabalho dos atletas das equipes pequenas. Para muitos, foi uma forma de resistência contra a AFA e o regime Juan Perón. A greve perdurou por cerca de 7 meses, encerrando no ano seguinte, com parte das exigências atendidas. A partir de então, o futebol argentino se notabilizou pelas incontáveis paralisações e protestos, que se sucederam ao longo da história.
Por outro lado, no país do futebol, os episódios de greve são mais raros, em que pese o recorrente descumprimento da legislação trabalhista-desportiva por parte dos clubes brasileiros. A inadimplência salarial, seja ela travestida - ou não - de “direito de imagem”, é contumaz no futebol tupiniquim.
Portanto, não posso culpar os jogadores do Internacional por postularem seu legítimo direito de receber seus salários, até porque é o clube empregador que está errado.
Na verdade, a inadimplência salarial sempre flertou com o Sport Club Internacional em quase todas as suas décadas de existência, contudo, foi contornada – invariavelmente - por seus dirigentes com muita competência. Um ato extremado de “greve”, como o articulado pelos jogadores do Inter, só se consuma quando não há diálogo (tampouco confiança) com a direção do clube.
Ora, a neófita direção colorada vem acumulando fracassos e fiascos sem precedentes na história do Internacional. Certamente, se o Inter não estivesse pagando por muitos malsucedidos treinadores que “hablan” espanhol – simultaneamente - não estaria atrasando salários, sobretudo depois da venda do Yuri Alberto. Além disso, se não houvessem infindáveis contratações desacertadas, não faltaria dinheiro para pagar o salário dos atletas que lá estão. Falta competência administrativa para essa direção. Falta competência futebolística. Falta competência financeira. Falta competência emocional, e o pior, falta credibilidade perante aos atletas que, por ausência de respaldo e confiança dessa direção, escolheram a forma mais embaraçosa de vindicar seus salários atrasados.
A atitude dos jogadores, apesar de justa e compreensível, foi condenável em sua forma. Os atletas foram pouco inteligentes ao optarem pela paralisação das atividades diante da falta de pagamento (de parte) dos salários. Essa atitude exacerbada acabou por transferir a responsabilidade pelos atrasos salariais, que era única e exclusiva da direção, para o próprio grupo de jogadores, perante parte da torcida. Faltou assessoramento aos atletas!
O torcedor mais apaixonado não está interessado nos compromissos financeiros assumidos pelos jogadores. O torcedor mais apaixonado não está interessado em saber que os altos salários dos atletas são fruto do precário aproveitamento da base e do repatriamento de jogadores. O torcedor mais apaixonado esquece, por vezes, que os atletas e seus salários foram contratados e referendados pela malograda direção.
Por isso, o torcedor mais apaixonado abomina qualquer tipo de GREVE, especialmente DE VITÓRIAS.
A ÚNICA MOBILIZAÇÃO QUE SATISFAZ O TORCEDOR COLORADO NESSE MOMENTO: É EM PROL DAS VITÓRIAS!