09/05/2026
Não, isso não é sobre censura. É sobre limite. Liberdade de imprensa jamais foi licença para transformar a morte de alguém em entretenimento moralmente preguiçoso. Criticar privilégios, estruturas e distorções do sistema é legítimo. O que não é legítimo é usar o falecimento trágico e prematuro de uma mulher - juíza, filha e ser humano - como matéria-prima para sarcasmo de baixo nível. Há uma diferença brutal entre crítica e desumanização. E parte da imprensa parece ter desaprendido isso.
O mais perturbador é perceber a naturalidade com que a dor alheia passou a ser convertida em “conteúdo”. Uma mulher que sonhava em ser mãe teve sua morte reduzida a uma punchline editorial. E ainda houve quem chamasse isso de humor, de inteligência ou de ousadia. Não é. Humor que depende da humilhação da tragédia revela menos sobre o alvo e muito mais sobre o caráter de quem escreve, publica e aplaude.
Toda sociedade que perde a capacidade de sentir vergonha diante da crueldade travestida de ironia começa a normalizar a barbárie sofisticada. A crítica pública precisa continuar firme, livre e contundente. Porém, sem abandonar aquilo que diferencia civilização de cinismo: empatia, decência e humanidade. Porque, quando até um túmulo vira palco para deboche, o problema já não está nas instituições. Está nas pessoas.