15/06/2026
O evento farmou aura. E muita.
Mais uma vez, a arte cumpriu aquilo que talvez seja sua missão mais nobre: reunir pessoas, provocar perguntas, desafiar certezas e criar pontes onde antes existiam apenas distâncias.
A partir de algumas cenas do sensível e potente documentário Will & Harper, a Casa do Advogado da OAB Ourinhos transformou-se em um espaço de escuta, diálogo e reflexão. E o mais curioso é que quase ninguém percebeu o tempo passar. O debate foi tão intenso e envolvente que o intervalo praticamente foi esquecido — embora ninguém tenha deixado de saborear o delicioso bolo da Patrícia, o pão de queijo assado pela Rita e as já tradicionais Bolachinhas de Nata da Olívia, que desta vez apareceram em clima de Copa do Mundo.
No filme, Harper revisita estradas, cidades e memórias tentando descobrir como será ocupar os mesmos espaços de antes, mas agora sob um novo olhar da sociedade. Em determinado momento, a grande questão deixa de ser a identidade da personagem e passa a ser algo muito mais universal: como convivemos com aquilo que não conhecemos? Como reagimos ao diferente? Como acolhemos experiências que não são as nossas?
Essas perguntas atravessaram o auditório da OAB durante toda a manhã.
A Doutora Jucele Mendes Martins, Coordenadora da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero, trouxe ao debate situações e desafios muitas vezes desconhecidos por parte do público presente, revelando aspectos da realidade vivida por pessoas LGBTQIA+ que raramente chegam às conversas cotidianas.
O médico Jarbas Alves da Rocha Neto apresentou dados alarmantes relacionados à ideação suicida entre pessoas que compõem a sigla LGBTQIA+, lembrando que por trás de estatísticas existem vidas, histórias e sofrimentos concretos que exigem atenção da sociedade.
A Advogada e tradutora Olívia Fonseca Maraston compartilhou sua experiência acadêmica no Canadá, relatando pesquisas sobre movimentos de retrocesso na proteção dos direitos LGBTQIA+ em diversos países, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, demonstrando que se trata de um fenômeno global e não de uma discussão restrita ao contexto brasileiro.
A Advogada e professora universitária Carolina Silvestre apresentou uma decisão judicial brasileira pioneira que reconheceu, para fins previdenciários, o gênero da pessoa beneficiária, revelando como o Direito vem sendo chamado a responder a novas demandas sociais e humanas.
O Advogado Matheus Henrique Filgueira Monteiro contribuiu com reflexões sobre os impactos dessas questões nas relações de consumo e no Direito do Consumidor, enquanto a Advogada Anna Consuelo Leite Merege Campos destacou a trajetória histórica de luta pela afirmação e proteção dos direitos das pessoas LGBTQIA+.
Encerrando as reflexões, o Presidente da OAB Ourinhos, Advogado e professor universitário Daniel Marques de Camargo, lembrou a importância de exercitarmos diariamente a alteridade, reconhecendo o outro como alguém único, portador de experiências, valores, culturas e histórias próprias.
Mas talvez os momentos mais marcantes não tenham vindo das falas preparadas.
Vieram dos relatos espontâneos.
Experiências pessoais compartilhadas por participantes transformaram o auditório em um espaço de humanidade. Histórias reais deram rosto, voz e emoção a muitas das inquietações vividas pela personagem Harper ao longo do documentário.
Ao final, ficou uma constatação.
Se não fosse a arte, dificilmente chegaríamos tão longe.
Uma palestra talvez transmitisse informações. Um artigo talvez apresentasse estatísticas. Uma decisão judicial talvez explicasse direitos.
Mas foi o cinema que abriu a porta.
Foi uma história contada em uma tela que permitiu que pessoas diferentes ocupassem o mesmo espaço, compartilhassem experiências, refletissem sobre suas próprias convicções e enxergassem realidades que permanecem muitas vezes invisíveis.
Foi a arte que tornou possível o encontro.
E como toda boa arte, ela não entregou respostas prontas.
Entregou perguntas.
Das melhores.
Daquelas que continuam ecoando muito depois que as luzes se acendem e os créditos terminam.
Como resultado concreto dessa manhã de reflexão e solidariedade, o evento arrecadou 20 quilos de ração para animais, que serão destinados à doação.
Nos veremos no próximo encontro.
Porque, ao que tudo indica, Direito e Arte continuam sendo uma excelente combinação.