20/02/2023
ACORDA POVO, ANTES QUE SEJA TARDE....
O rabo está abanando o cachorro
José foi assaltado. Levaram o carro dele.
Ao chegar em casa de táxi, ele imediatamente assumiu a culpa pelo roubo:
“eu dei bobeira, não deveria ter parado naquele semáforo”.
Maria foi estuprada, e quase morreu.
Ao prestar depoimento, ela deixou bem clara sua responsabilidade pelo episódio:
“eu vacilei, não deveria ter ido comprar pão sozinha”.
Um ladrão arrancou o telefone celular das mãos de João
enquanto ele atendia uma ligação.
Ele – o João, e não o ladrão – assumiu total culpa pelo crime:
“eu não sei onde estava com a cabeça quando fui atender
uma ligação no meio da rua”.
Maria foi morta durante um assalto.
Ela gritou e acabou levando um tiro.
Por ocasião de seu enterro,
Maria foi condenada por todos os presentes:
“que estupidez dela ter gritado, todo mundo sabe
que durante um assalto o melhor é f**ar em silêncio”.
Mário, um dedicado Policial Militar,
foi morto a tiros por traf**antes do morro no qual morava.
Seus familiares, entrevistados por um jornalista, o recriminaram duramente:
“ele sempre foi cabeça-dura,
nunca quis esconder a farda quando voltava para casa”.
No mesmo morro Paulo, um líder comunitário,
foi esfaqueado até a morte pelos mesmos traf**antes.
Seus amigos o criticaram ferozmente:
“que falta de juízo,
procurar a Polícia para denunciar que o crime estava dominando o morro”.
Marcos teve sua loja assaltada, e quase levou um tiro.
Seus empregados reclamaram dele:
“que estupidez, deixar aquele monte de mercadoria exposta na vitrina”.
Marcos passou a deixar tudo trancado em um cofre.
Mas a loja foi assaltada de novo, e um de seus funcionários, após quase levar um tiro por ter demorado a abrir o cofre, agrediu-o violentamente:
“seu miserável, f**a trancando tudo, mais preocupado com as mercadorias
do que com a gente, e quase levamos um tiro por sua causa”.
Carlos estava jantando com sua namorada em um movimentado restaurante
quando uma quadrilha armada saqueou todos os clientes.
Seu futuro sogro não gostou:
“este rapaz é um irresponsável,
ele sabe muito bem que não estamos em época de f**ar bestando por aí,
jantando fora, e acabou passando por um assalto e traumatizando minha filha”.
Joel entrou em um subúrbio com o caminhão da empresa
para entregar pacotes de biscoito nos bares de lá.
Após ter tido os produtos e o caminhão roubados, e quase ter sido morto,
foi despedido por seu chefe:
“que sujeito b***o, ir com o caminhão lá naquele bairro
sem pedir licença para o líder do tráfico local”.
Patrícia viajou a negócios.
Desembarcou no aeroporto com seu “notebook” e tomou um táxi.
Não conseguiu andar dois quarteirões – foi assaltada em um semáforo.
Na empresa, foi imediatamente repreendida:
“você não poderia ter desembarcado sem antes esconder o “notebook”,
deste jeito você pediu para ser assaltada”.
E é assim, de exemplo em exemplo, todos já parte do nosso cotidiano,
que vamos chegando a uma verdadeira “rotina do absurdo”.
Aqui no Brasil
é tão normal um cidadão ter medo de andar pelas ruas,
é tão comum um policial ter que esconder sua profissão para não morrer,
é tão usual pessoas terem que pedir permissão a traf**antes para subir em morros e
é tão rotineiro abrir-se mão da cidadania mais básica
que já não causa surpresa as vítimas estarem
se transformando em culpadas pelos crimes.
Diante desta tenebrosa realidade,
patrocinada pela fraqueza e falta de firmeza das nossas instituições,
talvez já não nos cause surpresa ver
um rabo abanando um cachorro.