02/11/2020
Para que ninguém a quisesse
In: COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p.
111-2
Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha
dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele
foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos.
Dos armários tirou as roupas de seda, das gavetas tirou todas as jóias. E vendo que,
ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e
tosquiou-lhe os longos cabelos.
Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se
interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.
Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em
silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.
Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da
mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.
Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma
rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.
Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar.
Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de
vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda