21/04/2026
“Meu ex é narcisista.”
Essa talvez seja uma das frases que mais aparecem quando alguém chega ao escritório em meio a um divórcio, uma disputa de guarda ou um conflito familiar já emocionalmente exausto.
E não apenas nos atendimentos. Basta alguns segundos nas redes sociais para encontrar diagnósticos prontos para relações inteiras, como se anos de convivência, dor e desgaste pudessem ser resumidos em uma única palavra.
Eu entendo por que isso encontra tanto eco. Quando uma relação deixa marcas (como manipulação, inversão de culpa, necessidade de controle, desqualificação silenciosa, ausência de responsabilização) dar um nome parece organizar a dor. Nomear oferece a sensação de ordem. Mas nem tudo é narcisismo.
O narcisismo faz parte da própria constituição psíquica. Todos nós temos uma dimensão narcísica. Muitas vezes, o que se chama de “narcisista” é alguém que não suporta limite, frustração e a existência do outro como sujeito.
E isso não é menos grave. O problema é transformar sofrimento afetivo em diagnóstico, como se fosse preciso provar que o outro tem um transtorno para legitimar a dor vivida.
No Direito de Família, isso aparece o tempo todo. A separação deixa de ser apenas o fim de um vínculo e passa a ser o palco onde antigas disputas continuam: controle financeiro, manipulação através dos filhos, resistência em formalizar acordos, descumprimento de convivência e litígios sem fim.
E, para quem vive isso, o maior desgaste muitas vezes nem está no fim da relação, mas na sensação de que ela nunca acaba, especialmente quando se encontra no processo e no conflito uma forma de permanecer presente, continuar exercendo controle e impedir que o outro siga.
Superar isso começa quando se entende que nem toda resposta virá do processo. Nem sempre haverá reconhecimento, arrependimento ou reparação emocional. E insistir nisso pode aprisionar ainda mais. Às vezes, seguir em frente exige aceitar que encerrar não é ser compreendido, é escolher não permanecer preso.