28/02/2026
DEPOIMENTO: POR QUE ESCOLHI O DIREITO PREVIDENCIÁRIO.
A vida toda gostei da advocacia.
Sempre enxerguei o Direito como um grande mediador da existência humana. Porque a vida, convenhamos, é uma demanda permanente. Cada pessoa carrega sua versão dos fatos, suas dores, seus argumentos, suas convicções. Se não houvesse uma ordem, um norte, um instrumento de equilíbrio, o mundo seria uma verdadeira lambança generalizada — e eu digo isso com carinho e realismo.
Mas por que o Direito Previdenciário?
À primeira vista, é um ramo que não ostenta glamour. Não tem o status de outras áreas mais comentadas. Parece simples. Parece técnico. Parece burocrático.
Mas nunca foi simples para mim.
Antes de advogar, fui servidora pública por 33 anos. Trabalhava próxima a uma agência do INSS, em Governador Valadares. Todos os dias eu via aquela cena que nunca saiu da minha memória: filas imensas. Senhores e senhoras vindos das cidades vizinhas. Pessoas simples. Trabalhadores da roça. Idosos. Acidentados. Doentes.
Não havia agendamento como hoje. Era tudo na insistência da presença física e da paciência quase heroica.
Eu olhava e me perguntava:
“Como essas pessoas conseguem resolver algo tão técnico sem quase nenhum conhecimento?”
Elas buscavam direitos — mas não conheciam o caminho. E o caminho previdenciário, quando não se conhece, parece um labirinto.
Meu coração se condoía. Às vezes alguém aparecia no meu setor pedindo ajuda para preencher um formulário. Eu interrompia o que estava fazendo e ajudava. Não dominava o assunto. O universo previdenciário ainda era obscuro para mim. Mas algo já se movia por dentro.
Uma inquietação boa. Uma vontade de entender para poder servir melhor.
O tempo passou. Fiz o curso de Direito. Curiosamente, naquela época o Direito Previdenciário sequer fazia parte da grade curricular. Continuava sendo uma incógnita.
Aposentei-me como servidora aos 52 anos. Trinta e três anos de trabalho. Ufa!
Senti-me livre. Livre para fazer exatamente aquilo que sempre amei: advogar.
Sou profundamente grata ao serviço público. Foi ali que adquiri maturidade, responsabilidade, estrutura profissional. Mas sabia que um novo capítulo começava.
O mundo jurídico é vasto. Se não escolhermos uma área, nos perdemos na imensidão. E foi então que aquela fila voltou à minha memória. Aqueles rostos. Aquela sensação de impotência que eu sentia ao vê-los tentando compreender algo que parecia distante demais.
Ali eu entendi:
“É aqui que vou atuar.”
Conquistei minha carteira da OAB e iniciei uma verdadeira maratona de pós-graduações e cursos. Foi um mergulho. Um mergulho daqueles que renovam a alma.
Conheci professores apaixonados pela matéria, profissionais que respiram Previdenciário com convicção e coragem. E foi ali que meus olhos se abriram de vez. O entendimento se aguçou. A mente clareou.
Pensei:
“Estou no lugar certo.”
O Direito Previdenciário se revelou complexo, minucioso, criterioso — e incrivelmente humano. Não é simplista. Não é menor. É profundo. Porque lida com o sustento de famílias, com a dignidade de quem trabalhou a vida inteira, com o amparo em momentos de incapacidade, idade avançada ou vulnerabilidade.
Descobri algo maravilhoso: quando estamos empenhados em aprender e compartilhar conhecimento, rejuvenescemos. Sinto-me iniciando a vida profissional todos os dias. Com entusiasmo. Com sede de atualização. Porque o Previdenciário muda. A legislação muda. Os desafios são constantes.
E eu gosto disso.
Mas aprendi também que não basta técnica. É preciso essência. É preciso olhar para o outro como se suas dores fossem nossas. É preciso ouvir com paciência. Explicar com clareza. Agir com responsabilidade.
O Direito Previdenciário exige amor.
E talvez tenha sido isso que me escolheu — antes mesmo que eu o escolhesse.
Hoje posso dizer, com serenidade:
Eu me redescobri.
Amo o que faço.
E cada vez que vejo um direito reconhecido, uma aposentadoria concedida, um benefício garantido… lembro daquelas filas. E agradeço a Deus por ter transformado aquela inquietação antiga na missão que hoje sustenta minha caminhada.