08/09/2026
VOCÊ QUER O FIM DO CASAMENTO OU O FIM DO CONFLITO?
Essa é uma das primeiras perguntas que faço quando um casal chega ao meu escritório considerando o divórcio.
Minha função como advogada de família não é incentivar divórcios. Também não é convencer duas pessoas a permanecerem casadas a qualquer custo.
Minha função é ajudá-las a compreender a decisão que estão prestes a tomar e, principalmente, a planejar as consequências dessa decisão.
É exatamente aqui que entra o Planejamento Familiar Sistêmico quando estamos diante da possibilidade de um divórcio.
Antes de começarmos falando em petição, partilha, guarda, alimentos ou processo, eu preciso fazer uma pergunta anterior:
Qual foi a crise conjugal que trouxe vocês até aqui?
Porque, dentro da metodologia do Direito Familiar Sistêmico, a crise conjugal pode desencadear dois caminhos: um conflito funcional ou um conflito disfuncional.
O conflito disfuncional é outra realidade. Estamos falando de situações que envolvem violência, abuso, negligência, alienação parental ou outras violações de direitos. Nesses casos, não existe essa conversa de tentar convencer alguém a permanecer no casamento.
A prioridade é compreender a violação, proteger direitos e identif**ar a intervenção jurídica adequada.
Mas existem também os conflitos funcionais.
São aqueles em que ainda existe possibilidade de diálogo, reorganização, mediação e construção de soluções.
E é justamente nesses casos que, muitas vezes, encontro casais completamente exaustos.
Eles acumularam mágoas, ressentimentos, frustrações, problemas de comunicação e experiências difíceis da convivência. Foram construindo muros entre eles até chegar ao ponto em que já não sabem mais como derrubá-los.
Às vezes, como a própria Palavra de Deus nos ensina ao falar da dureza do coração, existe um endurecimento produzido pelas experiências vividas, pelas dores, pelos traumas e pelas mágoas acumuladas.
Quando conseguimos compreender a crise e identif**ar que estamos diante de um conflito funcional, faço uma pergunta:
É realmente o casamento que vocês querem terminar ou é o conflito que vocês não estão conseguindo resolver?
Porque nem sempre o casal deseja o fim da conjugalidade.
Muitas vezes, ele deseja apenas o fim daquela realidade que se tornou insuportável.
E então vem outra pergunta que costumo fazer:
Vocês estão preparados para administrar duas famílias?
Essa pergunta costuma causar estranhamento.
“Como assim, duas famílias?”
Porque o divórcio não signif**a apenas que cada um vai seguir seu caminho e todos os problemas desaparecerão.
Se existem filhos, a parentalidade permanece.
E existe a possibilidade de novas uniões.
Um poderá se casar novamente. O outro também.
Essas novas pessoas poderão trazer filhos de relações anteriores, histórias familiares, responsabilidades, dificuldades, ex-cônjuges, novas rotinas e novas formas de convivência.
Poderão surgir padrastos, madrastas, enteados, novos filhos e diferentes núcleos familiares que continuarão conectados pelos filhos da primeira relação.
Então eu pergunto:
Se vocês estão exaustos porque hoje não conseguem administrar um conflito entre duas pessoas, estão preparados emocionalmente e juridicamente para administrar uma reorganização familiar muito mais complexa?
Isso não signif**a que o divórcio produzirá necessariamente novos conflitos, nem que permanecer casado será sempre a melhor escolha.
Signif**a apenas colocar diante daquele casal aquilo que é essencial ao planejamento:
as consequências da decisão.
Isso é Planejamento Familiar Sistêmico.
É mostrar ao casal aquilo que talvez ele não esteja conseguindo enxergar enquanto está emocionalmente atravessado pela crise.
Quando esse planejamento é colocado sobre a mesa, muitas vezes uma luz se acende.
O casal percebe que o conflito que parecia grande o bastante para justif**ar o fim da conjugalidade talvez ainda possa ser trabalhado.
Eles conseguem perceber que, em alguns casos, pode ser mais viável reorganizar aquilo que já construíram do que acreditar que o divórcio eliminará automaticamente todos os problemas existentes.
E aqui faço questão de deixar uma delimitação muito clara:
não estou falando de casamentos marcados por violência, abuso ou violação de direitos.
Estou falando de casais que atravessam conflitos funcionais, nos quais ainda existem segurança, autonomia e condições para diálogo e reorganização.
O planejamento, nesse contexto, não serve para convencer alguém a permanecer casado.
Serve para que a decisão pelo divórcio não seja tomada apenas como reação à exaustão produzida por um conflito que ainda poderia ser trabalhado.
Eu acredito em uma advocacia de família que não atua apagando incêndios, mas ensina como evitá-los.
É por isso que, antes de simplesmente ajuizar um divórcio, eu faço uma pergunta:
“É o casamento que vocês realmente querem terminar ou é o conflito que vocês ainda não conseguiram resolver?”
Se a resposta for o divórcio, nós vamos planejá-lo.
Isso é Planejamento Familiar Sistêmico: compreender antes de decidir e planejar antes de agir.
Dra. Ingrid Ellen Pimentel Dalbem
Advogada de Família | Planejamento Familiar Sistêmico