21/09/2026
Ter acesso ao conhecimento não significa, necessariamente, buscá-lo.
E talvez essa tenha sido a parte que mais me incomodou.
Não ouvi essas falas em uma mesa de bar, de pessoas que nunca tiveram oportunidade de estudar ou acesso à informação. Ouvi dentro de uma sala de pós-graduação, cercada de advogados, pessoas letradas, profissionais que trabalham diariamente com leis, direitos e interpretação da sociedade.
Ainda assim, ouvi que políticas para ampliar a participação de mulheres poderiam deixar a “capacidade” em segundo plano.
Ouvi que futebol feminino é chato, que ninguém quer assistir e que não faria sentido incentivar sua transmissão.
O problema é que é muito fácil analisar o presente ignorando completamente o caminho percorrido até aqui.
É fácil perguntar por que existem menos mulheres em determinados espaços sem perguntar por quanto tempo elas foram impedidas de ocupá-los.
É fácil comparar o futebol feminino com o masculino ignorando que, durante décadas, enquanto homens construíam clubes, campeonatos, torcida, investimento e tradição, mulheres brasileiras eram oficialmente impedidas de jogar.
Conhecimento está disponível.
Mas acesso à informação e disposição para confrontar aquilo que a gente já acredita são coisas completamente diferentes.
Por isso eu fui pesquisar as datas.
E quanto mais eu pesquisava, mais uma coisa ficava evidente:
não estamos falando de direitos conquistados em um passado distante.
Estamos falando de 1932. 1962. 1979. 1988. 2002. 2005. 2006. 2021. 2023.
Ontem.
Algumas dessas mulheres ainda estão vivas.
Algumas dessas mudanças aconteceram enquanto nós já estávamos vivas.
Então, antes de perguntar por que ainda existem políticas específicas para mulheres, talvez seja necessário conhecer a história que fez com que elas fossem necessárias.
Porque ignorância não é simplesmente não ter acesso ao conhecimento.
Às vezes, é ter acesso a ele todos os dias e escolher nunca procurá-lo.