19/09/2026
O GOSTO METÁLICO DA PALAVRA VORCARO
Amanheço com a palavra Vorcaro me arranhando os olhos. Pisco três vezes, jogo água nos olhos... que palavra irritante! Parece nome de marca de pneus, tem um quê de borracha que estira, estira mas não arrebenta, volta como um estilingue e acerta em cheio a cara da gente. Olho no espelho e vejo que ela está entre os dentes. Estridente com suas sílabas ásperas. Passo o fio dental, escovo, lavo e percebo que ela está na garganta estreita do meu grito, entalada, querendo ser engolida à seco, sem um fio de saliva. Enfio o dedo na goela para vomitá-la, para vorcarizá-la da minha vida, do meu entorno, da minha família, da minha pátria, mas ela está grudada em tudo, até em Deus. Roeu a sacralidade da igreja, rasgou sua dureza espessa e sua castidade casta.
Vorcaro é festa babilônica, babilesca! Balbúrdia com os mesmos rituais de Baal, em um banquete de Belsazar com bebida e bezerro de ouro. Aliás, eu acrescentaria uma letra nessa palavra, deveria ser “Vorcaros” para concordar com o plural das bizarrices que o nome carrega. Homens, de corações duros e falos brancos, acompanham a pluralidade, solvendo o cálice da propina. Seis mulheres para cada um. Cristãos que sacodem seus sexos na casa dos roedores, vampiros que chupam o sangue nacional, drenam os cofres públicos e celebram com vinho a desgraça do povo.
Olho para o meu corpo e ele está todo tatuado com essas letras malignas. Esfrego a pele com força e percebo que não é apenas o meu corpo, é o corpo-território, corpo-nação, corpo-superfície que está marcado à ferro e fogo com a tinta da irresponsabilidade. Trogloditas canibalescos comem nossos corações numa caçada política sem tréguas. Não encontro eucaristia que nos salve. Nenhuma oração para esquecer.
Vorcaro é um vocábulo sinestésico por natureza, não precisa invocação, tampouco mecanismos de buscas. Saltita diante dos olhos, penetra os ouvidos, ocupa as narinas com o cheiro de podridão, mete-se na língua, na boca, além de cortar os fios do nosso foco mental.
Seus filhos, que não são poucos, mastigam as ideias salomônicas do pai e sonham sua liberdade. Aprenderam cedo que o dinheiro não precisa ter mãos para apertar o pescoço de alguém. São criaturas de muitas patas, capazes de caminhar sobre a mesa de um jantar e, na mesma noite, sobre o cadáver de uma república. Vorcaro tem o dom de se apresentar como pessoa quando, na verdade, é um sistema digestivo. Tudo o que encontra, engole. A lei, a fé, a vergonha, a esperança. Depois arrota sobre o país uma espécie de silêncio caro, desses que chegam em taças de cristal, mas deixam a conta para os outros.
Penso nas palavras que não poderiam ser contaminadas. Justiça? Pronuncio-a devagar, como quem testa a temperatura da água antes do banho. Jus-ti-ça. Ainda há alguma coisa nela que não se deixa comprar? Provavelmente o “justo” escondido em sua barriga, essa medida antiga que insiste em perguntar quanto cabe a cada um. Mas até ela anda magra, de olhos fundos, procurando um lugar onde possa descansar sem ser confundida com vingança.
Volto ao espelho. Ainda há alguma coisa entre os meus dentes. Não é só Vorcaro. São suas derivações, seus diminutivos, seus parentes de sangue e de conveniência. Palavras que aprenderam a sorrir enquanto escondem os caninos. Palavras que abarcam acepções republicanas, cristãs, patrióticas, familiares... Palavras que vestem a roupa da decência e dormem tranquilas sobre lençóis de dinheiro.
Escovo os dentes outra vez. A espuma cresce, branca, quase religiosa. Por um instante, acredito que será possível limpar a boca do país. Depois cuspo na pia e vejo que a água continua turva. Vorcaro entrou em todas as bocas. Multiplicou-se com rapidez e facilidade. Instalou-se na língua dos que não se espantam, dos que pensam ser apenas um mal hálito. Porque o horror, quando se repete todos os dias, começa a perder as unhas. E aquilo que arranhava os olhos passa a ser parte da paisagem.
Torço muito para acordar amanhã com outra palavra. Quem sabe esperança. Quem sabe soberania. Quem sabe uma palavra antiga, que ainda guarde dentro de si um pouco de futuro. Ou, quem sabe, uma palavra nova que não se deixe engolir. Uma palavra que tenha dentes, mas não para devorar. Que saiba morder o medo, rasgar a mordaça, devolver ao grito à garganta. Uma palavra que não pertença a ninguém, senão àqueles que ainda não desistiram de dizer não.
Mas, por enquanto, Vorcaro continua entre os dentes da república, vorcarizando o silêncio, como se tivesse descoberto que o país inteiro é uma grande boca aberta onde ele pode facilmente se infiltrar.
Lucilene Machado