08/02/2026
Salve Maderite, salve Nelson Rodrigues — a sexta não mente
Nelson Rodrigues já havia entendido tudo muito antes da internet. Em uma crônica escrita no Rio de Janeiro dos anos 1960, ele percebeu que a sexta-feira deixara de ser apenas mais um dia útil e passara a funcionar como licença moral. Era o dia em que, como ele definiu com precisão incômoda, a virtude prevarica. Não se bebia porque havia motivo; bebia-se porque era sexta. Ali, sem nome, o “sextou” já estava criado.
Décadas depois, na era das redes sociais, o belo-horizontino Maderite — falecido na última sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026 — deu forma popular a esse velho costume. Ao viralizar a expressão “sextou, bebê”, ele não inventou uma moda; escancarou um privilégio. A frase nunca foi convite à celebração coletiva, mas ironia social dirigida. O “bebê” não é afeto: é deboche.
A sexta-feira, sobretudo depois do meio-dia, sempre foi um território liberado para poucos. Políticos, membros do Judiciário, advogados, empresários, artistas e a elite encerram cedo o expediente. Para a maioria do povo brasileiro, o trabalho segue até onde der — quando não invade o sábado e a própria vida. O “sextou” não anuncia descanso; confirma desigualdade.
O jogo de palavras é preciso. “Bebê” soa como ordem e como diminutivo. Bebe quem pode; aceita quem não pode. A frase transforma em humor aquilo que Nelson Rodrigues já denunciava como vício moral: a sexta-feira não muda o caráter das pessoas, apenas revela quem sempre teve permissão para largar o trabalho e erguer o copo.
Sextou, bebê: uns bebem porque podem; outros engolem porque precisam.
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Texto original: Dr. Robson Lopes
Fonte/livro: A Cabra Vadia/Cambalhotas do Otto (Nelson Rodrigues)
Foto: Internet.
Colaboração/revisão: ChatGPT