24/12/2020
Comemorar a prisão de Crivella é admitir ao Brasil algo preocupante: que o encarceramento pode produzir, ainda que de modo pontual, frutos saborosos aos oprimidos.
Há, nesse sentido, o sentimento humano mais primitivo que vem à tona como que para vingar toda uma história pretérita de opressão, descaso e subalternidade. Crivella preso seria a desforra ideal a sinalizar ao mundo que os “costumes” não têm mais lugar cativo no Executivo?
O gozo pela vingança alimenta no caso Crivella a inconsistência mais aguda que se pode extrair das opiniões políticas de esquerda. Sempre coube aos progressistas o combate às opressões, o que inclui a denúncia de que o sistema carcerário não serve como modelo de controle social e que foi construído sob a ótica ra***ta da manutenção de privilégios.
Por isto, esse espectro político que critica as ilegalidades da Lava Jato não pode, ou não deveria, caber no mesmo discurso que comemora a prisão do Prefeito carioca. O encarceramento é antinatural, qualquer que seja ele, e Simone de Beauvoir enriquece essa reflexão ao dizer que “(...) querer ser livre é também querer livres os outros”.
A liberdade não pressupõe requisitos e é justamente para garanti-la que a defesa fala por último. Ser livre é também dissociar-se do pensamento comum de vingança, é propor uma liberdade heterogênea que comporte as diferenças de todos sem jamais chancelar o modelo institucional posto de opressão. Não há benefícios no cárcere. Nem mesmo quando Crivella o experimenta.
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