13/03/2026
PROPOSTA DE COLABORAÇÃO ESTRATÉGICA, VINCULATIVA E HISTÓRICA PARA A REDENÇÃO DO LESTE DE ANGOLA
De:
Rede dos Activistas da Região Leste de Angola
Em estreita e indissolúvel articulação com:
• Bloco de Resistência Leste
• Movimentos Cívicos de Combate às Assimetrias Regionais do Leste
Sede comum: Província do Moxico "Luena"
Abrangência territorial plena: Províncias de Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico Leste, Cuando Cubango (Cuango e Cubango), com estruturas activas em todos os 48 municípios e mais de 300 comunas destas províncias, iincluindo as comunidades tradicionais Lunda, Chokwe, Luchazi, Luvale, Bundas, e Lunda-Ndembo.
Para:
Excelentíssimos Senhores Presidentes, Direcções Nacionais, Secretários-Gerais e Órgãos Decisores
dos Partidos Políticos na Oposição em Angola
Luena, Moxico, 02 de Março de 2026
Assunto: Solicitação urgente, pública e vinculativa de esclarecimento integral sobre a “Ampla Frente de Salvação de Angola” e Proposta de Colaboração Leal, Activa e Condicionada à Assunção Integral de uma Agenda Prioritária Concreta, Histórica e Transformadora para o Leste Marginalizado
Excelentíssimos Senhores,
A Rede dos Activistas da Região Leste de Angola, em nome próprio e em representação colectiva, legítima e irrevogável do Bloco de Resistência Leste e dos Movimentos Cívicos que, há mais de duas décadas e meia, lutam com sacrifício, prisão, exílio e sangue contra as assimetrias regionais mais profundas e humilhantes que o nosso País conhece, dirige-se a Vossas Excelências com o mais elevado sentido de patriotismo, responsabilidade histórica e urgência nacional.
Não escrevemos por retórica vazia, nem por oportunismo político. Escrevemos porque o Leste de Angola, berço dos grandes reinos pré-coloniais Lunda-Chokwe, guardião das maiores reservas diamantíferas, florestais, hídricas e agrícolas de Angola, continua a ser sistematicamente tratado como um “quintal explorado”, um reservatório de recursos naturais e de votos eleitorais, mas nunca como parceiro digno, igual e respeitado no projecto nacional de construção de uma Angola justa, unida e próspera para todos os seus filhos.
Esta proposta não é um pedido de esmola. É uma oferta de parceria séria, leal e estratégica, mas condicionada a compromissos concretos, públicos, vinculativos e mensuráveis. O Leste já pagou caro demais pela sua lealdade cega ao projecto nacional. Chegou a hora de sermos ouvidos, respeitados e incluídos com justiça.
1. Solicitação Urgente de Esclarecimento Público, Claro e Vinculativo sobre a “Ampla Frente de Salvação de Angola”
Antes de qualquer passo adicional, exigimos dos Partidos Políticos na Oposição um posicionamento claro, público, por escrito, assinado pelos Presidentes ou Secretários-Gerais e divulgado nos meios nacionais e internacionais sobre a natureza exacta da designada “Ampla Frente de Salvação de Angola”. Queremos respostas concretas e sem ambiguidades às seguintes questões fundamentais:
- Quais partidos, organizações da sociedade civil, personalidades e forças regionais já integram formalmente esta Frente ou pretendem integrar?
- Qual é o programa mínimo comum já negociado, assinado e publicitado?
- Qual o lugar real, efectivo e paritário reservado às forças vivas da sociedade civil, em especial às organizações regionais do Leste, aos movimentos cívicos, às monarquias tradicionais (Sobas, Reis e Rainhas do Leste), aos activistas e às comunidades étnicas historicamente marginalizadas?
- Qual o cronograma concreto de acção, o mecanismo de inclusão efectiva das províncias do Leste na direcção política e na tomada de decisões da Frente?
- Como se garante que esta Frente não seja mais uma coligação de Luanda que usa o descontentamento do interior como “massa de manobra” eleitoral?
A ausência de respostas claras e transparentes até ao momento gera uma desconfiança profunda, justificada e histórica. O Leste não aceitará mais ser convidado para “fotografias de unidade” sem ter voz na mesa de decisões. Queremos parceiros sérios ou não queremos parceria nenhuma.
2. A Contribuição Histórica, Heroica e Indispensável do Leste nas Lutas de Independência Nacional e nas Lutas Cívicas Posteriores
O Leste não pede favores: cobra justiça. Porque foi o Leste que mais contribuiu, com sangue, com vidas e com território, para a independência nacional e para a resistência contra o autoritarismo pós-independência.
Durante a Guerra de Libertação Nacional (1961-1974), o “Front Leste” foi decisivo. A MPLA abriu o seu terceiro front no Leste (Moxico, Cuando Cubango, Lunda), onde Daniel Chipenda e a Revolta do Leste desafiaram o centralismo de Luanda. A UNITA, fundada por Jonas Savimbi (com forte base no planalto e Leste), abriu o front oriental e controlou vastas áreas de Moxico, Bié e Cuando Cubango, combatendo o exército colonial português com guerrilhas que imobilizaram milhares de tropas inimigas. As populações Lunda, Chokwe, Luchazi, Luvale e Bundas deram abrigo, comida e combatentes aos guerrilheiros. Milhares de filhos do Leste tombaram em emboscadas, minas e combates no Luena, Saurimo, Dundo, Menongue e no mato profundo.
Após 1975, o Leste continuou a resistir. Durante a guerra civil, o Leste foi palco de batalhas épicas (Mavinga, Cuito Cuanavale, etc.), mas também de massacres, deslocações forçadas e minas terrestres que ainda hoje matam e mutilam crianças. O Bloco de Resistência Leste, A Rede dos Activistas e os movimentos cívicos actuais são herdeiros directos dessa tradição de luta pela dignidade regional, contra o centralismo que substituiu o colonialismo português pelo “colonialismo interno” de Luanda.
Reconhecer esta contribuição não é revisionismo: é justiça histórica elementar. Por isso exigimos que a história oficial inclua a Rainha Lueji wa Nkonde (fundadora do Império Lunda no século XVII, que uniu facções, escolheu o sucessor Chibinda Ilunga e criou estruturas de governação que influenciam até hoje Angola, RDC e Zâmbia) e figuras como Nhakatolo, bem como a luta dos Mwatchissengue, Bundas, Luchazes e Lunda-Ndembo.
3. A Realidade Dolorosa e Inaceitável do Leste: Riquezas Colossais, Povo na Miséria Absoluta: Uma Discriminação Estrutural e Deliberada
O Leste é a região mais rica em recursos naturais de Angola e, paradoxalmente, uma das mais pobres em condições humanas. Esta não é uma fatalidade da geografia ou do clima. É o resultado de uma discriminação regional histórica, sistemática, deliberada e continuada que começou na era colonial (exploração pela Diamang sem retorno local), agravou-se na guerra (Leste como “zona de sacrifício”) e persiste na “paz” desde 2002: os recursos do Leste financiam o Orçamento Geral do Estado, mas o Leste recebe migalhas.
As riquezas imensas que o Leste oferece a toda a Nação:
Diamantes: Lunda Norte e Lunda Sul produzem mais de 90% dos diamantes angolanos. Em 2024, Angola produziu cerca de 14 milhões de quilates, gerando cerca de 1,5 mil milhões de dólares. Em 2025, produção subiu para 17,2 milhões de quilates e receita para 1,8 mil milhões de dólares (dados Sodiam e Kimberley Process). Catoca (Lunda Sul) é uma das maiores minas do mundo. Luele e Lulo geram fortunas. Mas as comunidades onde as pedras são extraídas vivem sem estradas, sem hospitais, sem escolas decentes.
Madeiras e florestas: Vastíssimas florestas e galeria ao longo dos rios Cuango, Luachimo, Cassai, Cubango e Cuando, uma das maiores reservas florestais de África, com madeiras preciosas de alto valor (Mussivi, etc.).
Potencial agrícola e pecuário:Solos férteis em milhões de hectares, clima tropical húmido com precipitação anual superior a 1.400-1.600 mm, rios perenes. O Leste poderia alimentar Angola inteira com arroz, milho, mandioca, soja, girassol, pecuária extensiva e apicultura moderna. No entanto, a agricultura continua de enxada, de subsistência.
Recursos hídricos: O Leste é a “caixa-d’água” de Angola. Rio Cubango/Okavango nasce no Moxico e alimenta ecossistemas transfronteiriços de classe mundial. Rios Cuango, Cuando, Zambeze e afluentes caudalosos. Água em abundância, mas a população bebe directamente dos rios contaminados.
Património cultural e turístico: Ombalas dos Reis e Rainhas do Leste (património vivo), tradições Lunda-Chokwe milenares, quedas de água, savanas, potencial para ecoturismo e turismo cultural de nível mundial.
O nível de miséria que o nosso povo vive uma vergonha nacional que clama aos céus:
De acordo com o Índice de Pobreza Multidimensional (OPHI/INE, dados 2015-2016 actualizados nos relatórios 2020-2024):
- Na Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico, Cuando Cubango e províncias semelhantes, a pobreza multidimensional afecta pelo menos 70% da população Provincial (contra 23,7% em Luanda).
Áreas rurais do Leste: 87,8% multidimensionais pobres (nacional). Muitos municípios ultrapassam os 90-98% (ex.: Lóvua, Luacano, etc.).
- UNICEF 2024: Moxico, Cuando Cubango e Lunda Norte registam algumas das maiores taxas de malnutrição aguda infantil do país.
- Nacionalmente, 40% vivem abaixo da linha de pobreza; no Leste rural, este número sobe para 80-90% nos demais pontos.
Consequências concretas e visíveis:
Sem estradas: A ligação Bié–Moxico–Cuando Cubango é um calvário de buracos, poeira e lama. Na época das chuvas, municípios inteiros ficam isolados semanas ou meses. O povo demora dias para chegar a um hospital ou mercado.
Sem água potável: Apesar da concentração de rios caudalosos, o acesso a água tratada nas zonas rurais é inferior a 30%. Diarreias, cólera, parasitoses e mortes de crianças por desidratação são quotidianas.
Sem energia eléctrica: Electrificação rural no Leste é próxima de zero. Famílias usam candeeiros a petróleo ou ficam na escuridão total. Hospitais e escolas funcionam com geradores intermitentes e caros.
Sem condições alimentares: Terra fértil + água abundante = fome e insegurança alimentar crónica. Agricultura de subsistência sem inputs, sem armazenamento, sem estradas para escoar. Milhares de famílias sobrevivem com uma refeição por dia.
Saúde catastrófica: Ausência total de Hospital Pediátrico Regional e Hospital Psiquiátrico Regional. Mortalidade infantil e materna muito acima da média nacional.
Crianças de rua: Milhares em Luena, Saurimo, Dundo, Menongue, sem cadastro, sem protecção, vítimas de exploração, dr**as e violência.
Cultura marginalizada: Ombalas degradadas, tradições Lunda-Chokwe ensinadas como “folclore” em vez de património nacional. A Rainha Lueji e Nhakatolo são quase invisíveis nos livros escolares oficiais.
Esta discriminação não é acidente: é política de Estado que concentra investimentos no litoral e planalto central, enquanto o Leste “paga” com recursos e recebe nada.
4. A Nossa Agenda Prioritária do Leste: 8 Exigências Irrenunciáveis, Justificadas e Vinculativas :
Colocamo-nos à disposição para colaboração leal, massiva e permanente com os Partidos na Oposição, mas apenas e só se estes assumirem publicamente, por declaração assinada e integrada no programa eleitoral, nos acordos de coligação e no plano de governação, a seguinte Agenda Prioritária do Leste, com orçamentos plurianuais, cronogramas e fiscalização tripartida (sociedade civil do Leste + oposição + Estado).
Cada ponto é justificado pela discriminação histórica, pelas riquezas extraídas, pela miséria actual e pela contribuição do Leste às lutas nacionais:
1. Fiscalização permanente, independente e efectiva das obras públicas na região Leste: criação imediata de Comissões Mistas Provinciais (sociedade civil + oposição + representantes tradicionais) com poder de auditoria, interrupção de obras irregulares e denúncia pública. Justificação: décadas de obras fantasmas e corrupção que roubam os royalties diamantíferos e florestais que pertencem ao povo que os produz.
2. Criação urgente de cadastro nacional e programas integrados de protecção, acolhimento, escolarização, formação profissional e reinserção para meninos e crianças de rua do Leste, financiados com pelo menos 10% dos royalties diamantíferos e florestais. Justificação: centenas de crianças abandonadas são consequência directa da pobreza extrema e da ausência de políticas sociais no Leste.
3. Construção urgente de infra-estruturas de saúde e reabilitação cultural:
Hospital Pediátrico Regional do Leste (sede Moxico, delegações Saurimo e Dundo); Hospital Psiquiátrico Regional do Leste; reabilitação integral e protecção das Ombalas dos Reis e Rainhas do Leste como património nacional vivo. Justificação: saúde catastrófica apesar das riquezas; cultura Lunda-Chokwe ignorada apesar de ser berço da nação angolana.
4. Construção da Cidade Desportiva Regional do Leste (Moxico), com estádio de categoria internacional, pavilhões multiusos e centro de formação de talentos. Justificação:
juventude do Leste talentosa mas sem infra-estruturas; desporto como ferramenta de integração nacional e combate à marginalização.
5.Institucionalização imediata de uma Taxa Regional de Desenvolvimento sobre Diamantes e Madeiras (Taxa do Leste): afectação mínima de 40% da receita directamente às províncias produtoras, sob fiscalização tripartida. Justificação: o Leste produz 90%+ dos diamantes (1,8 mil milhões USD em 2025) e madeiras preciosas, mas vive na miséria, fim ao saque sem retorno.
6. Criação e efectivação por lei de Autarquias Locais e estruturas supra-municipais (regiões administrativas ou províncias especiais) com autonomia financeira, legislativa e de gestão próprias para o Leste. Justificação: corrigir historicamente as assimetrias; dar voz real às comunidades Lunda, Chokwe, Luchazi, etc.
7. Ligação rodoviária estratégica Leste-Sul e integração interna: reabilitação e asfaltagem urgente da estrada Bié–Moxico–Cuando Cubango, com ramais para Saurimo, Dundo, Luau, Menongue e todos os municípios; construção de pontes sobre rios principais. Justificação: isolamento actual apesar de rios e terras férteis impede desenvolvimento agrícola, comercial e humano.
8. Elevação da cultura da região Leste ao nível nacional e reconhecimento oficial da luta e contribuição da Rainha Lueji wa Nkonde e Nhakatolo: inclusão obrigatória na história activa de Angola, nos programas escolares nacionais e nos livros de ensino, com destaque especial para a história e contribuições dos Tchokwe, Lwenas, Bundas, Luchazes, Lunda-Ndembo e todas as monarquias tradicionais do Leste. Criação de um Instituto Nacional de Estudos Lunda-Chokwe sediado no Leste. Justificação: o Leste deu à nação as raízes do Império Lunda, herança que funda parte da identidade angolana, mas é sistematicamente apagada ou folklorizada.
Implementação de cursos superiores de engenharia voltados para o estudo dos recursos minerais e naturais, bem como para a gestão florestal.
- Construção de escolas médias técnicas que ofereçam cursos relacionados às áreas minerais e florestais.
- Criação de uma universidade específica e de caráter particular destinada à região
5. Condições Sine Qua Non para a Nossa Colaboração
Os Partidos na Oposição que desejarem o nosso apoio activo, a nossa mobilização massiva nas urnas e nas ruas, e a nossa participação leal na luta comum deverão:
a) Assumir publicamente, por declaração conjunta assinada, esta Agenda Prioritária do Leste até antes do fim de 2026;
b) Incluir integralmente os 8 pontos no programa eleitoral, acordos de coligação e plano de governação;
c) Criar imediatamente um Comité de Coordenação Leste-Oposição com poder decisório paritário e sede rotativa no Leste.
Sem estes compromissos sérios, públicos e vinculativos, não haverá colaboração. O Leste já não aceita ser “reserva de votos” nem “massa de manobra”.
Aguardamos resposta formal, pública e por escrito no prazo máximo de 15 (quinze) dias úteis.
Com respeito patriótico, esperança na mudança real e determinação inabalável do povo do Leste que já deu tudo pela Angola,
Pela Rede dos Activistas da Região Leste de Angola,
Pelo Bloco de Resistência Leste,
Pelos Movimentos Cívicos de Combate às Assimetrias Regionais do Leste
Coordenação Geral
Contactos institucionais: 923132660 /927190951/923662230
Luena, Moxico – Angola
Cópia para:
- Todas as Direcções Nacionais dos Partidos na Oposição
- Órgãos de Comunicação Social nacionais e internacionais
- Representantes das Monarquias Tradicionais do Leste
- Sociedade Civil Angolana
- Organismos Internacionais (ONU, União Africana, UE, etc.
O Leste observa. O Leste espera. O Leste exige justiça.
A hora da redenção regional chegou. Que a resposta seja à altura da história que o Leste escreveu com sangue.
Juntos, podemos construir uma Angola verdadeiramente una, justa e próspera, onde o Leste deixe de ser o “quintal” e passe a ser o pilar que sempre foi.
Que assim seja.