16/06/2025
Desta vez foi o Mohamed a provocar a nossa intervenção na reflexão da figura de um suposto intelectual bajulador _ verso barreira para o desenvolvimento do país e do continente no geral.
Para mim se trata de uma questão desconfortável, mas essencial: a bajulação.
Bajular é enaltecer alguém de forma desproporcional ou não fundamentada, com o intuito de obter um benefício pessoal — seja um cargo, um título ou um espaço de influência. Esta prática, longe de ser uma virtude, tornou-se um método recorrente para a ascensão social e política em muitos contextos africanos.
Mas a verdadeira inquietação emerge quando o bajulador se apresenta como intelectual. Aqui urge traçar uma linha clara. O intelectual, por definição, não se submete ao jogo da conveniência. Ele não se curva perante o poder pelo poder. O intelectual defende valores universais, posiciona-se com ética e compromete-se com a verdade, ainda que isso lhe custe reconhecimento ou privilégio.
O bajulador, ao contrário, dissolve-se na ausência de princípios. Ao exaltar quem não possui mérito, integridade ou visão, ele rebaixa não apenas a figura louvada, mas também a si próprio. Pior ainda: torna-se cúmplice da mediocridade institucionalizada.
Maquiavel afirmou que os fins justificam os meios. Mas devemos perguntar: que tipo de sociedade se constrói quando os meios são a subserviência e a mentira? Que legado deixamos quando o mérito cede lugar ao servilismo?
Se o caminho para a ascensão é bajular, então não desejo nem ser bajulador, nem ser chamado de intelectual nestes moldes.
A verdade é que a bajulação não constrói. Pelo contrário, corrói o tecido moral das nações. E o maior drama de África é que muitos dos seus “intelectuais” se tornaram obstáculos ao seu próprio desenvolvimento. Quando a inteligência se converte em instrumento de propaganda, e não em farol de lucidez, deixamos de avançar.
Não podemos continuar a permitir que o título de “intelectual” seja atribuído a quem trocou a consciência crítica pela conveniência política. A verdadeira responsabilidade do pensador é ser voz da sociedade, mesmo quando esta voz incomoda.
Assim, afirmamos sem hesitar: bajular não é virtude. Não é qualidade. Não é mérito. E muito menos é solução para um continente que deseja desenvolver-se com justiça, equidade e dignidade.
Que os verdadeiros intelectuais não se calem. Que se levantem com coragem e compromisso. Porque o silêncio dos lúcidos é o oxigénio da tirania.
Atentamente,
Mestre Dr. Vicente Cuancua