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02/08/2026

O NÃO NOME DAS COISAS OU TODAS AS COISAS TÊM NOME NA CRÍTICA LITERÁRIA!?
TOMO I

Ainda sobre os ecos do III Simpósio sobre Crítica Literária, que encerrou hoje as suas actividades. No passado dia 31 de julho, o professor António Quino apresentou a comunicação subordinada ao tema "O não nome das coisas", que foi brilhantemente exposta e suscitou um amplo debate entre os participantes.

Durante a sua intervenção, o professor defendeu que a crítica literária angolana sofre de uma estranha ilusão: a linguagem crítica tem revelado poucas mudanças ao longo do tempo. Por isso, propõe a renovação dos conceitos. Em outras palavras, para o professor António Quino, é necessário que a crítica literária angolana adopte uma nova perspectiva, o que implica a reformulação dos conceitos utilizados na categorização das obras.

Acrescenta ainda que o maior desafio da crítica literária angolana não consiste em descobrir novos autores, mas sim em descobrir novos conceitos, a literatura não tem obrigação de respeitar o conforto dos críticos.

Neste breve texto, apresento algumas posições que procuram dialogar criticamente com as ideias defendidas pelo professor António Quino. Certamente, o debate não se esgota aqui, uma vez que a sua comunicação abre um campo de reflexão profundo, que merece a atenção dos estudiosos da literatura, dos críticos literários e de todos os interessados nos estudos literários.

Vivemos uma época em que a novidade parece ser a medida de todas as coisas. O que ontem era considerado sólido, hoje é frequentemente tratado como ultrapassado. A crítica literária não escapa a essa tendência. Em nome da inovação, multiplicam-se novas terminologias, redefinem-se categorias e propõem-se diferentes formas de interpretar a literatura. A mudança tornou-se quase um valor em si mesma. No entanto, permanece uma pergunta pouco confortável: será que todos os conceitos precisam realmente de mudar?

A resposta talvez esteja escondida na própria natureza da linguagem. Há palavras que atravessam séculos sem perderem a sua força. Não porque resistam ao tempo por teimosia, mas porque continuam a nomear com precisão aquilo que pretendem designar. O mesmo acontece com muitos conceitos da crítica literária. Se um conceito continua a explicar satisfatoriamente um fenómeno literário, qual é a necessidade de o substituir apenas para acompanhar o ritmo das modas intelectuais?

É curioso observar que ninguém exige a renovação permanente de conceitos matemáticos como “triângulo” ou “círculo”. A sua estabilidade não representa atraso, mas rigor. Na crítica literária, embora os objetos de estudo sejam mais complexos e sujeitos a interpretações, também existem conceitos cuja permanência assegura a continuidade do diálogo entre gerações de estudiosos. Termos como género literário, narrador, personagem, metáfora ou intertextualidade continuam produtivos porque descrevem realidades que permanecem reconhecíveis, apesar das transformações da literatura.

Naturalmente, a literatura muda. Surgem novas formas de escrita, novos suportes, novos leitores e novas sensibilidades. Nessas circunstâncias, alguns conceitos precisam de ser ampliados, reformulados ou mesmo substituídos. Contudo, daí não decorre que toda a arquitetura conceptual deva ser demolida. Renovar não significa apagar; significa compreender quando a mudança é necessária e quando a continuidade é mais fecunda.

Existe, aliás, um risco pouco discutido. Quando cada geração decide reinventar toda a terminologia crítica, o diálogo académico torna-se mais difícil. Os investigadores passam mais tempo a explicar os novos nomes do que a compreender as obras literárias. O excesso de inovação conceptual pode transformar a crítica num exercício de linguagem sobre a própria linguagem, afastando-a do seu objecto principal: a literatura.

Talvez a verdadeira maturidade da crítica literária consista precisamente em distinguir aquilo que deve mudar daquilo que deve permanecer. Nem toda permanência é conservadorismo, assim como nem toda mudança representa progresso. Há conceitos que envelhecem porque deixaram de explicar o mundo; outros permanecem porque continuam a iluminá-lo.

No fim de contas, os conceitos são instrumentos, não ornamentos. O seu valor não reside na novidade das palavras, mas na capacidade de tornar inteligível a experiência literária. Enquanto cumprirem essa função, não há razão para lhes decretar a reforma. Afinal, a crítica literária avança não apenas quando inventa novos conceitos, mas também quando sabe preservar aqueles que continuam a dizer, com clareza e precisão, o que a literatura ainda nos permite compreender.

Das várias questóes que tenho, deixo apenas algumas delas ao professor António Quino:
Se os conceitos da crítica literária mudarem continuamente, como será possível manter uma linguagem científica comum entre os investigadores?

A renovação permanente dos conceitos não compromete a estabilidade epistemológica da crítica literária?
Se cada geração de críticos criar novos conceitos para designar os mesmos fenómenos, não estaremos apenas a mudar os nomes sem produzir novo conhecimento?

Até que ponto a inovação terminológica contribui efectivamente para o avanço da crítica literária e não apenas para a sua complexificação?
Será que a constante reformulação dos conceitos não dificulta a comparação entre estudos produzidos em épocas diferentes?
A mudança conceitual representa sempre progresso ou pode significar perda de precisão teórica?

Será que a verdadeira evolução da crítica literária angolana reside na mudança dos conceitos ou na ampliação das possibilidades de leitura que esses conceitos já oferecem?

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