18/08/2026
Eu tenho uma terra rica, com um bom clima e com gente maravilhosa, gente forte.
E lá vem alguém, não sei de onde, dizer-me para entregar tudo, para ir pro céu.
Eu pergunto: mostre-me o céu no mapa do mundo!...
Nunca vi...
Mostre-me um espaço chamado inferno.
Também nunca vi.
O que eu vejo é que o povo moçambicano vai entregando a sua vida, a sua força e os seus recursos para ir para um céu que não existe.
Portanto, estamos todos à volta de um mito, de uma utopia e, talvez, até de uma lenda.
Onde é o paraíso?!
Ficam-te com a terra e tu vais pro céu...
...a cultura bantu está mais próxima de Jesus Cristo do que a cultura europeia....se a minha cultura africana está mais próxima de Jesus Cristo, então, quem são esses indivíduos todos para virem dar-me ordens?
Como se eu não tivesse capacidade.
Como se eu não tivesse uma cultura.
Como se eu não tivesse tradição.
À semelhança daquilo que acontecia ontem com as igrejas antigas, em que era obrigatório ter um hospital ou uma escola; não seria difícil exigir a essas barracas, chamadas de igrejas, pelo menos uma biblioteca ou aulas de alfabetização.Mas ninguém diz nada.
Eu não consigo acreditar que tenhamos aqueles edifícios pomposos para rezar e que, depois da reza, voltemos para casa onde a panela não tem feijão e o fogão não tem carvão. E não temos habilidades para poder ler, nem condições para comprar um livro para o nosso próprio filho.
Eu acho que alguma coisa breve deve ser feita.
Não digo obrigar, mas, pelo menos, fazer ver a essas lideranças que, se quiserem operar, têm que ter algumas pré-condições.
Gostaria de deixar clara uma coisa:
Deus é uma coisa. Em nome de Deus é outra coisa.
Ora, eu sou escritora...dizem que a Bíblia foi escrita por inspiração divina, e eu acredito. Mas a Bíblia foi escrita por mãos humanas.
Então, pergunto:
Será que essas pessoas que escreveram, reescreveram ou traduziram a Bíblia não tinham racismo nos seus subconscientes?
...porque há sempre um lugar de inferno colocado à volta da raça negra.
As origens das religiões dominantes no mundo começaram no continente africano. Agora, quem são os americanos, os europeus ou os asiáticos para virem dizer-me: deixa de rezar na tua língua, deixa de rezar da tua maneira, se queres ir para o paraíso?
A minha terra já era um paraíso antes de eles a terem invadido.
Primeiramente, vieram com aldrabices para ficarem com aquilo que era nosso por direito.
E, depois, ensinaram-nos que, para recuperarmos o paraíso, tínhamos de abandonar a nossa terra, a nossa cultura, a nossa língua e a nossa forma de compreender o mundo...
PAULINA CHIZIANE